O Vaticano proclamou neste domingo (7) a canonização de Carlo Acutis, jovem italiano morto em 2006, aos 15 anos, vítima de leucemia. Conhecido como o “Padroeiro da Internet”, Carlo deixou um legado de fé e evangelização pelas redes sociais que alcançou milhões de pessoas em todo o mundo, muito antes de ser oficialmente declarado santo pela Igreja Católica.
Em Campo Grande, a devoção ao jovem ganhou força a partir de duas histórias consideradas milagrosas na capital: os casos de Matheus Vianna e Gabriel Nunzio. Ambas as histórias emocionam não apenas pelo drama humano, mas também pela força da fé que os une a Carlo Acutis.
O milagre de Matheus
Matheus Vianna nasceu com uma rara má formação no aparelho digestivo, conhecida como pâncreas anular, que o impedia de se alimentar sem vomitar. O quadro clínico o fazia sofrer com vômitos constantes, dificuldades alimentares e baixo peso, sendo tratável apenas cirurgicamente.
No entanto, devido à fragilidade do menino, a má formação não poderia ser corrigida cirurgicamente. Sem alternativas médicas eficazes, a família se agarrou à fé, foi quando história de Matheus começou a se transformar.
Movidos pela devoção católica, os familiares de Matheus iniciaram uma novena pedindo a intercessão de Carlo Acutis a Deus. Durante uma missa na Paróquia São Sebastião, em 2013, o menino de 4 anos tocou uma relíquia de primeiro grau do então beato e fez um pedido: parar de vomitar.
Naquela mesma noite, algo surpreendente aconteceu. Pela primeira vez, ele pediu comida e conseguiu se alimentar sem problemas de um prato completo de arroz, feijão, bife e batata frita. Dias depois, exames confirmaram o desaparecimento da anomalia, sem cirurgia ou intervenção médica, e que o pâncreas dele estava completamente curado.
A pediatra Rosângela Rigo, do Humap (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian), que acompanhava o caso, registrou que a cura não tinha explicação científica. O caso foi minuciosamente analisado por especialistas do Vaticano, passando por um rigoroso processo de investigação médica e teológica, a fim de identificar se de fato não havia explicação científica.
Em 2020, a Santa Sé reconheceu oficialmente o milagre, abrindo caminho para a santidade de Carlo Acutis.
Família do Matheus Lins Vianna, hoje com 15 anos / Gabriel Alencar/Assessoria
A recuperação de Gabriel
Outra história aconteceu com Gabriel Terron Nunzio, em 2016. Ele era estudante do ensino médio, atleta da seleção de handebol da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e atuava intensamente na Paróquia São Sebastião, no bairro Marabá. Lá, servia como cerimoniário, coordenava o grupo jovem “Carlanis” e auxiliava na catequese.
Saudável e ativo, ninguém suspeitava que ele tinha uma condição cardíaca silenciosa. O problema veio à tona após o uso de Franol, um broncodilatador, durante os treinos esportivos. O medicamento desencadeou uma arritmia grave e uma parada cardíaca repentina, quando Gabriel aguardava em um ponto de ônibus na Avenida Costa e Silva.
Gabriel foi internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Humap e a notícia da gravidade mobilizou a comunidade, que se uniu em vigílias, caminhadas penitenciais e orações ininterruptas.
No hospital, após a parada cardíaca, o padre Marcelo administrou a Unção dos Enfermos usando uma relíquia de primeiro grau de Carlo. Para o sacerdote, que acompanhou Gabriel desde a Primeira Comunhão, aquele foi um dos momentos mais marcantes de sua trajetória.
A frase repetida pelo padre, “Deus não faz o milagre pela metade”, tornou-se um lema para os que intercediam pela vida de Gabriel. As orações deram certo: após 56 dias, Gabriel recebeu alta em estado neurovegetativo, mas sem perspectiva de recuperação. No entanto, a fé da comunidade não cessou.
Aos poucos, Gabriel começou a apresentar sinais de melhora. Movimentos, fala e consciência foram retomados em um processo considerado improvável pelos médicos. Para familiares e amigos, não havia dúvida: tratava-se da intercessão de Carlo Acutis.
Apesar de não ter entrado oficialmente no processo de canonização, por ter ocorrido antes da beatificação, o caso de Gabriel é lembrado como sinal da presença do novo santo na vida da comunidade.
Para Gabriel, sua família e comunidade, não restam dúvidas: Carlo Acutis intercedeu por ele / Redes Sociais
Legado em Campo Grande
Com a canonização deste domingo, Carlo Acutis entra para o calendário oficial da Igreja Católica. Mas em Campo Grande, seu nome já estava ligado a histórias de fé e esperança há mais de uma década.
Na Paróquia São Sebastião, onde relíquias do jovem italiano estão expostas, fiéis continuam a se reunir em oração e testemunhar graças recebidas. Para as famílias de Matheus e Gabriel, a santificação de Acutis não apenas confirma o que já acreditavam, mas fortalece a missão de espalhar sua mensagem.
“Nos piores momentos é que nos apegamos a Deus. A melhora do Gabriel nos transformou em pessoas melhores, mais cheias de fé e esperança”, diz a mãe do jovem. Já a avó de Matheus relembra o dia em que o neto parou de vomitar como “um sinal divino”.
“Agradeço a Deus e ao Carlo todos os dias por essa graça imensa, mas sempre com humildade. Isso mostra ao mundo que a santidade ainda existe, que ela pode estar presente em nossas vidas”, conta.


