sábado, setembro 12, 2026

Brasileiro fica ‘curado’ de HIV por um ano e meio após tratamento inovador em SP

Date:

Share

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um paciente que participou de um estudo liderado por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) ficou “curado” do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) por 78 semanas, o equivalente a um ano e meio. Esse é um dos casos mais promissores de remissão de longo prazo do vírus, o que pode indicar novos caminhos para o tratamento do HIV e para uma possível eliminação sem a necessidade de transplante de medula óssea.

A pesquisa selecionou 30 voluntários, todos homens latinos-brancos com média de idade 38,3 anos, variando entre 23 e 58 anos. Após uso de medicamentos durante 48 semanas, o tratamento foi interrompido para verificar se o vírus retornaria ao organismo.

Dos 26 participantes que aceitaram essa interrupção, 25 tiveram o retorno da carga viral em até 14 semanas, o que equivale a cerca de três meses e meio. Já o paciente identificado como P13 apresentou um controle prolongado da carga viral, mantendo o vírus indetectável por 78 semanas, mas voltou a ser infectado.

A pesquisa começou a ser idealizada em 2012, quando os cientistas iniciaram a metodologia para estudar as barreiras que dificultam a eliminação do HIV.

“O objetivo era investigar alternativas para curar a doença ou, pelo menos, aproximar as pessoas da cura, diminuindo o número de células que hospedam o HIV no corpo”, explica o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, que coordenou a pesquisa.

O recrutamento dos voluntários começou em 2014. Dos 64 candidatos avaliados, foram selecionados os 30 participantes finais. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética da Unifesp e os participantes deram consentimento por escrito para participar.

Os pesquisadores testaram diferentes estratégias isoladas e combinadas para superar essas barreiras. A primeira delas envolvia a intensificação do tratamento antirretroviral com mais medicamentos para tentar suprimir melhor o vírus. A segunda envolvia o uso de medicamentos chamados “reversores de latência” que despertam o vírus latente para reduzir os reservatórios virais, locais no corpo onde o vírus permanece escondido e não é eliminado pelos tratamentos convencionais.

Houve também o uso de um medicamento que induz a morte das células que abrigam o HIV, semelhante à quimioterapia contra o câncer.

“Por fim, foi utilizada uma terapia celular personalizada, uma espécie de vacina feita a partir das próprias células do paciente modificadas em laboratório para ensinar o sistema imunológico a reconhecer e eliminar as células infectadas, inclusive onde o vírus costuma se esconder”, afirma Diaz.

Os voluntários foram divididos em seis grupos de cinco pessoas, utilizando uma lista gerada por computador para garantir a distribuição aleatória. Um desses grupos foi o de controle, no qual os participantes continuaram recebendo apenas o tratamento antirretroviral convencional.

Outro grupo recebeu todas as quatro intervenções, e os demais quatro grupos foram submetidos a diferentes combinações dessas intervenções.

Durante o período de tratamento, não foram observados sintomas ou efeitos colaterais graves, que atrapalham ou impedem as atividades normais da pessoa (grau 3), nem risco de morte (grau 4).

O tratamento foi seguro e não causou queda significativa na imunidade nem piora no controle do vírus durante esse intervalo – infectologista e coordenador da pesquisaPara testar a eficácia das intervenções, foi necessário interromper o tratamento antirretroviral para verificar se o vírus retornaria ou não, mediante aprovação em um comitê de ética.

Diaz explica que isso ocorre porque a interrupção não pode ser feita arbitrariamente, pois envolve riscos. “O vírus pode rebater, causando piora clínica ou risco de transmissão, o que exige uma avaliação cuidadosa de segurança.”

O participante P13 foi um dos pacientes do estudo que teve um resultado promissor. Após a interrupção do tratamento, ele conseguiu manter a quantidade de vírus no sangue tão baixa que os testes não conseguiam detectar o HIV, episódio conhecido como carga viral indetectável.

Além disso, o P13 teve indicação de reversão da idade epigenética em cerca de 15 anos, uma idade usada por cientistas para avaliar o envelhecimento biológico do corpo. Em pessoas com HIV, essa idade costuma ser acelerada, ou seja, o corpo envelhece mais rapidamente devido à infecção e inflamação.

Isso significa que o corpo desse paciente estava biologicamente mais jovem do que sua idade real. “O tratamento pode ter não só controlado o vírus, mas também revertido sinais de envelhecimento acelerado.”

Resultados assim só foram alcançados por meio do transplante de medula óssea. No entanto, segundo Diaz, essa é uma técnica muito invasiva, pouco acessível e não aplicável para a maioria dos pacientes portadores do HIV.

O pesquisador comentou ainda que os cientistas da Unifesp já estão iniciando um novo estudo. Dessa vez, vão utilizar um grupo controle e outro em que todos os voluntários serão submetidos às quatro intervenções combinadas. Entre os participantes estará o paciente P13, que retornará ao estudos.

“A ciência avança aos poucos, passo a passo. Cada estudo que concluímos nos ajuda a desenhar o próximo, buscando sempre melhorar os resultados. Não é algo que terá sucesso imediato, mas estamos caminhando com muita segurança para garantir que as pessoas não corram riscos e que os tratamentos possam ser aplicados para um número cada vez maior de pacientes.”

Share
Canais Oficiais

Instagram

Siga e acompanha

Seguir no Instagram

YouTube

Inscreva-se no canal

Inscrever-se

TikTok

Siga e veja os vídeos

Seguir no TikTok

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Barra Redes Sociais
78,200FansLike

Artigos relacionados

Jovem denuncia motorista de aplicativo por estupro no Jardim Petrópolis (vídeo)

Uma mulher de Campo Grande denunciou ter sido vítima de estupro durante uma corrida por aplicativo na madrugada...

Fachin dá 24h para PF informar situação da íntegra do celular de Vorcaro

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, deu prazo de 24 horas para que a Polícia...

Ancelotti convoca Seleção para amistosos; veja a lista

O técnico Carlo Ancelotti divulgou, nesta quarta-feira (9), a lista com os 26 jogadores convocados para os próximos...

Ataque em escola: aluna parte para cima de professora e a golpeia com faca

Uma professora ficou ferida após ser atacada por uma de suas alunas na Escola Estadual Dr. Gerson dos Santos Peres...