A partir de janeiro de 2026, o comentarista Alfredo da Mota Menezes, de 81 anos, deixará a rotina diária da Centro América FM, encerrando uma trajetória de 13 anos na Rede Matogrossense de Comunicação (RMC). Ao longo desse período, ele se consolidou como uma das principais referências em análise política e econômica em Mato Grosso, com um trabalho voltado à interpretação e contextualização das notícias.

A despedida marca o fechamento de uma etapa intensa, após décadas dedicadas à vida acadêmica, à produção intelectual e ao jornalismo. “Foi um aprendizado enorme, gigantesco. Eu vim do mundo acadêmico, da universidade, e passei para outra área, que é o jornalismo, com um ritmo completamente diferente do que eu estava acostumado”, declarou.
Da UFMT para a comunicação
Antes de chegar ao rádio, à televisão e também como colunista do Portal Primeira Página, Alfredo construiu uma sólida carreira acadêmica como professor de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Especialista em História da América Latina, ele realizou mestrado, doutorado (PhD) e pós-doutorado nos Estados Unidos, com bolsas de pesquisa, e lecionou por cerca de 30 anos no ensino superior.
A vivência acadêmica e a experiência internacional ampliaram sua visão sobre política, economia e relações internacionais, bagagem que passou a aplicar diretamente no jornalismo. “O meu trabalho nunca foi buscar a notícia em si, mas interpretar o que estava acontecendo, principalmente na política e na economia, e tentar traduzir isso de forma mais clara para as pessoas”, contou o analista.
Uma rotina na RMC
Na Centro América, Alfredo iniciou as atividades em março de 2013, atuando simultaneamente no rádio e na televisão. Ele permaneceu por cerca de oito anos no Bom Dia Mato Grosso, da TV Centro América, além de manter presença diária no rádio por mais de uma década, tornando-se uma das vozes mais conhecidas da emissora.
Entre os períodos mais marcantes dessa trajetória, segundo ele, está a pandemia de Covid-19, que alterou profundamente a rotina de produção jornalística. Como ocorreu em diversas redações do país, Alfredo passou a trabalhar remotamente, gravando análises em casa e participando do rádio à distância.
“A Covid mudou tudo. Eu passei a gravar de casa, no celular, mandava o material para a emissora e fazia o rádio por telefone; aquilo mudou completamente a rotina e a forma de trabalhar, relembrou.
O formato improvisado se estendeu por cerca de dois anos e evidenciou uma transformação mais ampla no jornalismo, com maior dependência do digital e intensificação da participação do público.
Informação, redes sociais e fake news
Ao longo desses anos, Alfredo acompanhou de perto a mudança no comportamento da audiência. Se antes o público apenas consumia a notícia, hoje participa ativamente, comenta e compartilha informações, sempre que nem sempre corretas.
Para ele, esse cenário ampliou a importância do jornalismo responsável e do papel do comentarista, especialmente em meio à disseminação de fake news, comum em períodos eleitorais. Leitor assíduo de jornais nacionais e internacionais, Alfredo defende que o hábito da leitura contínua é essencial para formar senso crítico e distinguir informação de boato.
Livros, artigos e produção intelectual
Paralelamente ao trabalho no rádio e na televisão, Alfredo construiu uma reconhecida trajetória como autor. Ao longo da carreira, publicou livros no Brasil e no exterior, com obras voltadas à história, à política e às relações internacionais, muitas delas dedicadas à análise da Guerra do Paraguai, da política brasileira e das relações da América Latina com os Estados Unidos e a Europa. Essa produção ampliou o alcance de suas reflexões para além da sala de aula e do jornalismo diário, consolidando seu nome também no meio editorial.
Mesmo deixando a rotina diária do rádio, Alfredo seguirá escrevendo artigos e avalia, com tranquilidade, a possibilidade de produzir um novo livro. “É o fechamento de um ciclo. Foi muito bom ter ficado aqui todo esse tempo, pelo aprendizado, pela convivência e pela troca que esse trabalho proporcionou”, destacou.
A saída da Centro América FM não representa um afastamento completo do debate público, mas uma despedida do ritmo intenso imposto pelo jornalismo diário. Aos 81 anos, Alfredo afirma estar saudável e disposto a dedicar mais tempo à leitura, à escrita, à família e às viagens, mantendo ativa a reflexão crítica que marcou sua trajetória.

