segunda-feira, abril 27, 2026

Fósseis de 770 mil anos podem revelar ancestral de humano moderno e de neandertal

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REINALDO JOSÉ LOPES
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Fósseis de quase 800 mil anos encontrados no Marrocos podem representar a linhagem do nosso gênero, o Homo, que deu origem tanto aos ancestrais dos seres humanos modernos quanto aos seus primos de primeiro grau da Eurásia, os neandertais e denisovanos.

De acordo com os descobridores dos fósseis, que publicaram na última quarta-feira (7) suas conclusões na revista científica Nature, a anatomia desses humanos primitivos combina traços mais primitivos e outros que só apareceriam mais tarde na nossa espécie (Homo sapiens) e em seus parentes do fim da Era do Gelo.

O estudo é assinado por uma equipe de peso, encabeçada por Jean-Jacques Hublin, ligado ao Collège de France, em Paris, e ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, na Alemanha. Hublin também foi o responsável por identificar o que os pesquisadores consideram como mais antigos fósseis do H. sapiens propriamente ditos, com 300 mil anos, igualmente em solo marroquino. Abderrahim Mohib, do Instituto Nacional de Ciências da Arqueologia e do Patrimônio, no Marrocos, é o outro coordenador do trabalho.

Os fósseis descritos no artigo desta semana na Nature vêm das vizinhanças da cidade de Casablanca (a mesma celebrizada pelo filme clássico de Hollywood), de uma caverna conhecida em francês como “Grotte à Hominidés” (“Gruta dos Hominídeos”, ou seja, dos ancestrais da humanidade).

Escavações no local acontecem desde o fim dos anos 1960, mas a nova publicação reúne dados obtidos pelos paleoantropólogos dos anos 1990 em diante, quando a caverna foi explorada de forma sistemática, com a obtenção de instrumentos de pedra, restos de fauna antiga (principalmente mamíferos) e de membros do gênero Homo.

A abertura na rocha tinha sido formada por influência marinha, num momento em que o nível dos oceanos estava mais alto, e depois foi sendo preenchida por uma sucessão de sedimentos trazidos pelas marés, pelo vento e também de origem continental. Os fósseis de ancestrais humanos incluem três mandíbulas, dentes isolados, vértebras e o pedaço de um fêmur -este último com marcas que indicam que ele chegou a ser roído por um carnívoro de grande porte, provavelmente uma hiena.

Uma série de métodos de datação indica que os ossos do gênero Homo correspondem ao começo da fase geológica conhecida como Pleistoceno Médio. Entre esses métodos, o que equipe avalia como mais preciso naquele contexto é o que leva em conta mudanças na orientação do campo magnético da Terra, indicando que os fósseis teriam cerca de 770 mil anos de idade.

Se a data estiver correta, ela é significativa por estar próxima das estimativas do momento de divergência entre as diferentes linhagens do nosso gênero, feitas a partir dos dados de DNA.

Como já dispomos de versões bastante completas do genoma (conjunto do material genético) dos neandertais e dos denisovanos, bem como, é claro, do genoma humano moderno, essas informações podem ser usadas para tentar estimar quando, grosso modo, os membros ancestrais de cada uma dessas espécies pararam de se reproduzir entre si e adquiriram tendências reprodutivas próprias, formando linhagens relativamente separadas.

Ao mesmo tempo, a datação de 770 mil anos está dentro da margem de erro da idade de outro fóssil muito importante, encontrado na Espanha e batizado com o nome científico Homo antecessor (as datas estimadas para ele ficam entre 950 mil e 770 mil anos).

As idades semelhantes dos fósseis podem ser significativas, considerando a proximidade e as conexões entre o território marroquino e a Espanha, do outro lado do estreito de Gibraltar, que separa a Europa da África (não por acaso, foi por ali que invasores do norte da África chegaram diversas vezes ao território europeu na Idade Média, e o inverso aconteceu a partir do século 15).

No entanto, a análise comparativa dos ossos ancestrais indica, para os autores do novo estudo, que o Homo antecessor espanhol já está mais próximo das linhagens de neandertais e denisovanos. Já os fósseis de Marrocos manteriam características mais mistas, incluindo traços associados a membros africanos mais antigos do gênero Homo e outras que aparecem no H. sapiens, bem como em neandertais e denisovanos.

“Os fósseis da ‘Grotte à Hominidés’ podem ser os melhores candidatos que temos na busca por populações africanas que estão perto da raiz dessa ancestralidade compartilhada, reforçando, assim, a visão de que a nossa espécie tem uma origem africana profunda”, resumiu Hublin em comunicado oficial.

Ainda é cedo para confirmar essa visão, porém, alerta o especialista espanhol Antonio Rosas, do Museu Nacional de História Natural de Madri, que comentou a pesquisa a pedido da Nature.

“Nem os fósseis atribuídos à espécie H. antecessor nem os encontrados no Marrocos podem ser vistos como o próprio ancestral comum do H. sapiens e do grupo neandertal-denisovano”, avalia ele. “Em vez disso, podem ser considerados membros de linhagens proximamente aparentadas, perto da bifurcação ancestral.”

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