domingo, abril 26, 2026

Asfalto ‘casca de ovo’ escancara obra mal feita no Noroeste

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As obras de asfalto e drenagem na Rua Urupês, Jardim Noroeste, em Campo Grande, contrastam com o alto valor do contrato, já que o asfalto recém-aplicado esfarela com facilidade e chega a se desfazer nas mãos, lembrando uma verdadeira ‘casca de ovo’, de tão fino e frágil.

O serviço, que deveria representar um avanço na infraestrutura do bairro após anos de espera da população, hoje é apontado como mais um exemplo de obra pública mal executada, com indícios de irregularidades técnicas e possível prejuízo aos cofres públicos.

O caso é apurado em Inquérito Civil instaurado em maio de 2025, conforme publicação no Diário Oficial do MPMS de 23 de maio daquele ano. A investigação tramita na 31ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, sob responsabilidade do promotor Humberto Lapa Ferri.

O foco do inquérito é o Contrato do Lote 2 de pavimentação e drenagem do Jardim Noroeste, firmado entre a Prefeitura de Campo Grande e a empresa DMP Construções Ltda., vencedora da licitação com proposta de R$ 19.494.466,86 para execução de asfalto e drenagem pluvial.

Segundo o Ministério Público, há indícios de que a empreiteira teria executado a capa asfáltica antes da conclusão da drenagem pluvial, etapa considerada essencial para garantir a durabilidade da via, sobretudo em uma região de solo arenoso como o Jardim Noroeste. Sem drenagem adequada, a água da chuva infiltra no solo, compromete a base e acaba arrastando o asfalto, situação que segundo moradores, já ocorre desde a finalização de parte das obras.

Rua vira rio durante a chuva

Durante a visita da reportagem à Rua Urupês, foi possível identificar trechos de asfalto aparentemente novos, mas com sistema de drenagem fraco e pouco estruturado. Em alguns pontos, bocas de lobo estariam encobertas por galhos, folhas e terra, o que compromete ainda mais o escoamento da água.

A camada asfáltica também chama atenção pela espessura extremamente fina, descrita por moradores como “dois dedinhos de asfalto. Em vários trechos, o material se solta com facilidade esfarelando ao ser tocado e já apresenta sinais de desgaste severo.

Moradores relataram que aguardaram por anos o asfaltamento da via, que antes era marcada por poeira e lama em períodos de chuva. No entanto, o que parecia ser a solução acabou agravando os problemas. Sem bocas de lobo e galerias suficientes no início da obra, a enxurrada passou a se concentrar na própria rua, que literalmente’“vira um rio’ durante chuvas fortes.

A força da água é tamanha que já provocou alagamentos em casas, invasão de quintais, destruição de calçadas e prejuízos a veículos. Segundo relatos, a enxurrada desce carregando lixo, terra, galhos e até objetos maiores, como lixeiras, vassouras e capacetes.

Outro ponto crítico apontado pela população é um reservatório construído no fim da Rua Urupês, que foi apenas escavado, sem qualquer tipo de revestimento ou proteção. Durante as chuvas, o local enche rapidamente e acaba se misturando com a água que desce pela rua, formando uma grande área alagada.

O espaço, além de perigoso por ser profundo e mal sinalizado, tem atraído crianças e adolescentes, que passam a utilizar o local como ponto de banho quando o reservatório está cheio. A água, porém, é descrita como suja, com lama, detritos e até resíduos de esgoto, o que aumenta o risco de acidentes e problemas de saúde.

Moradores afirmam que já fizeram diversas reclamações e pedidos de providências, mas enfrentam um jogo de empurra entre órgãos públicos. “Ninguém sabe explicar, ninguém assume a responsabilidade”, relataram.

Os problemas ficaram ainda mais evidentes em novembro de 2025, quando, poucos dias após a conclusão de parte da obra, um trecho do asfalto da Rua Urupês cedeu e foi levado pela chuva. Para liberar o tráfego, a prefeitura realizou uma intervenção emergencial, no entanto a ‘gambiarra’ não chegou a resolver o problema.

Mesmo após a instalação posterior de algumas bocas de lobo, a situação não melhorou. De acordo com os relatos, elas entopem rapidamente devido ao grande volume de água, não dando vazão suficiente para a enxurrada.

Além dos prejuízos materiais, a obra mal executada trouxe medo e insegurança para quem vive na região. Uma moradora contou que, antes do asfalto, conhecia os buracos da rua e conseguia se locomover mesmo na chuva. Agora, com o asfalto danificado e coberto por terra em vários pontos, teme cair em buracos novos que não consegue identificar, especialmente por andar sempre a pé.

A Rua Urupês não seria um caso isolado. Moradores afirmam que outras vias do bairro também foram asfaltadas sem sistema adequado de drenagem, o que reforça a situação investigada pelo Ministério Público.

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