sexta-feira, outubro 30, 2026

Vereador avança com carro contra indígena em bloqueio de via no Pará

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J.ORGE ABREU
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um indígena quase foi atropelado, na noite desta quinta-feira (5), quando o vereador Malaquias Mottin (PL), dirigindo em um carro conversível, tentou avançar um bloqueio na BR-163, em Santarém (PA), em frente à sede da Cargill, empresa do ramo do agronegócio. A ação foi filmada por outros manifestantes.

O grupo, em protesto, ocupa há 15 dias a entrada da empresa contra o decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos hidroviários no rio Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND) e abre caminho para concessões e para a privatização da “manutenção da navegabilidade”, incluindo dragagens.

Em nota publicada nas redes sociais, Mottin diz ter sido cercado, atacado e ferido por manifestantes que portavam pedaços de madeira. “Já agredido e diante do temor iminente pela própria vida, munido do direito de se proteger, o motorista forçou a saída e conseguiu deixar o local”, afirma o comunicado.

No carro, também estava a mulher do vereador, que é cadeirante. “Sua esposa, que se encontrava no banco do passageiro, em condição de extrema vulnerabilidade em razão de sua deficiência física, conseguiu se esquivar, ficando em estado de extremo desespero e sofrendo grave abalo psicológico ao ver seu esposo correndo risco de vida”, diz a nota.

A Câmara Municipal de Santarém afirmou, em nota, que intimidação ou ameaças são incompatíveis com o exercício da função pública e com os princípios democráticos.

“A Câmara Municipal de Santarém repudia os atos atribuídos ao vereador Malaquias Mottin, amplamente divulgados em vídeos nas redes sociais, nos quais o parlamentar aparece avançando em direção a barreira formada por indígenas que participavam do ato pacífico, colocando em risco a integridade física dos manifestantes”, diz trecho da nota assinada pelo presidente da Casa, Jader Ilson Pereira (União).

Uma testemunha disse à Folha que o vereador chegou filmando e invadindo o local do protesto com o carro e que, quando algumas pessoas tentaram impedi-lo, ele teria avançado com o veículo.

O Cita (Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns), entidade representante de 14 povos do Baixo Tapajós, emitiu uma nota de repúdio contra a ação e destacou que o local de protesto reúne crianças e idosos.

“O movimento indígena repudia a tentativa de intimidação e reafirma que a mobilização é legítima e pacífica, em defesa do rio Tapajós, dos territórios e do direito à consulta livre, prévia, informada e de boa-fé”, diz trecho da nota.

A principal demanda dos indígenas é a revogação do decreto, que também abrange os rios Madeira (RO) e Tocantins (TO).

Na quarta (4), os manifestantes bloquearam a avenida Fernando Guilhon, que dá acesso ao aeroporto de Santarém, após uma reunião sem acordo com representante do governo federal. Eles liberaram a via na noite do mesmo dia.

Nesta quinta, os manifestantes voltaram a se reunir com o governo Lula. O dia de diálogo também terminou em o fim do ato. Outra reunião marcada para esta sexta (6) pretende por fim ao protesto que dura mais de duas semanas.

O projeto de hidrovias já foi alvo de protestos na COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, e a Marina Silva, de Meio Ambiente, afirmaram que a consulta prévia com as comunidades seria feita. Contudo, a promessa não foi cumprida.

O Ministério dos Povos Indígenas disse, em nota, que “reconhece a legitimidade das preocupações apresentadas e reafirma que nenhuma iniciativa relacionada à dragagem, manutenção hidroviária ou qualquer outro empreendimento no rio Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente, conforme a convenção nº 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a Constituição Federal.”

Leia Também: Polícia prende turista argentina sob acusação de injúria racial no RJ

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