segunda-feira, abril 27, 2026

Negociação entre EUA e Irã recomeça

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Do lado americano estão o negociador Steve Witkoff e o genro presidencial Jared Kushner, enquanto os iranianos são liderados pelo chanceler Abbas Araghchi nas conversas indiretas. Antes do encontro, a mídia estatal de Teerã dizia que as perspectivas eram positivas.

O encontro é visto como uma das últimas chances antes de Donald Trump cumprir a ameaça de atacar o país persa, o que pode gerar consequências inauditas -da instalação de uma ditadura militar em caso de decapitação do regime à guerra civil, as possibilidades são várias.
A seguir, um roteiro de como a situação chegou até aqui.

DESCONFIANÇA VEM DE LONGE

A relação de desconfiança entre Irã e EUA remonta a 1953, quando Washington e Londres patrocinaram a derrubada do governo que havia nacionalizado uma empresa petrolífera britânica. O golpe colocou no poder o xá Reza Pahlevi, altamente impopular.

Em 1979, religiosos fundamentalistas liderados pelo então exilado aiatolá Ruhollah Khomeini tomaram o poder e o xá foge para os EUA, fundando a República Islâmica. A crise dos reféns na embaixada americana em Teerã, prego no caixão do governo de Jimmy Carter, acabou de vez com as relações diplomáticas entre os ex-aliados.

CONFLITOS PAUTAM A AGENDA

De 1980 a 1988, o Irã travou uma sangrenta guerra com o Iraque, cujo ditador Saddam Hussein recebia apoio dos EUA que depois o derrubariam. A política de expansão iraniana por meio de prepostos como o Hezbollah libanês floresceu, com choques como o atentado que matou 241 fuzileiros americanos em Beirute em 1984. Quatro anos depois, os EUA mataram 290 pessoas ao derrubar por engano um jato comercial iraniano no golfo Pérsico.

COMEÇA A TENSÃO NUCLEAR

Após a primeira Guerra do Golfo (1991), os EUA buscam conter a proliferação de armas de destruição em massa na região. Isso leva a um embargo total à venda de petróleo e gás pelos iranianos. Teerã tinha um programa nuclear assistido pela ONU desde os anos 1950, mas nos anos 1980 a suspeita de que ele servia para disfarçar a busca pela bomba cresceu. Agora, viraria tema constante na agenda internacional.

APROXIMAÇÃO E O EIXO DO MAL

Após dois períodos breves de tentativa de negociação, no fim do governo Bill Clinton em 2000 e quando Washington e o Irã tinham um inimigo comum no Talibã afegão, George W. Bush colocou o país persa ao lado de Coreia do Norte e Iraque no chamado “eixo do mal”, em 2002. Quatro anos depois, o presidente Mahmoud Ahmadinejad acelera a produção de urânio enriquecido, enquanto faz uma abertura a Bush numa carta inédita. Não dá certo, e o iraniano denuncia Israel e a direita americana pelo fracasso.

O CAMINHO DO ACORDO

Em 2013, Barack Obama inicia a negociação com o moderado Hassan Rouhani, chamando à mesa seus aliados europeus, a Rússia e a China. O resultado veio dois anos depois, com o JCPA (sigla inglesa para Plano de Ação Global Conjunto), em que Teerã submeteu seu programa a um regime de inspeção e renunciou à busca pela bomba na prática, em troca do fim de sanções ocidentais e a liberação de US$ 100 bilhões congelados.

TRUMP ZERA O JOGO

Presidente, Trump fez os EUA saírem do JCPA em 2018, afirmando que os iranianos apenas ganhavam tempo rumo à bomba. Passou à fase de coerção militar, pressionando Teerã a negociar sob a ameaça de ataques às instalações do programa. Trump manda matar o principal general do país, e depois uma operação israelense assassinou um cientista nuclear vital.

O IRÃ ACELERA NOVAMENTE

Pressionada, a teocracia acelera a produção de material físsil, que é enriquecido em ultracentrífugas. A agência da ONU diz que as “linhas vermelhas” estão rompidas e que a bomba está à mão do Irã em questão de meses. Hoje, a Agência Internacional de Energia Atômica diz haver 440 kg de urânio enriquecido a 60%, suficientes para talvez 15 bombas de baixa potência. Em 2025, os EUA voltaram à mesa negociadora de forma indireta, em Omã, sem sucesso.

MAS A TEOCRACIA ESTÁ ENFRAQUECIDA

Isso tudo ocorreu em momento de fraqueza do regime. Primeiro, problemas econômicos e sociais levaram a protestos inéditos em 2022. Depois, a guerra disparada pelo aliado Hamas contra Israel levou à destruição de boa parte da defesa primária de Teerã, na forma de grupos como o terrorista palestino ou o Hezbollah libanês.

Em 2024, o presidente radical Ebrahim Raisi morreu em uma estranha queda de helicóptero. Após duas trocas de fogo diretas com o Irã, Israel atacou o rival por 12 dias em junho passado, dominando os céus sobre Teerã rapidamente. Os aiatolás lançam 600 mísseis contra o Estado judeu, mas quase 90% foram abatidos.

Sem um acordo diplomático, Trump bombardeou em junho pela primeira vez a teocracia, atingindo três centrais nucleares. Os danos reais são disputados, mas a ação terminou a guerra com Israel. Os problemas, contudo, continuaram.

A HORA DA VERDADE?

Com novos e maciços protestos de rua contra o regime na virada para 2026, Trump promete apoiar os manifestantes, mas recua de um ataque por não ter forças suficientes no Oriente Médio e os vê massacrados. Enquanto desloca o maior contingente aeronaval desde 2003 para a região, retoma as negociações com o Irã, primeiro em Omã e, depois, na representação omani em Genebra.

O clima é de pessimismo, pois Trump quer o fim completo do programa nuclear, enquanto Teerã oferece limitá-lo e renunciar à bomba. Os EUA também querem restringir o programa de mísseis balísticos, um pedido de Israel, aliado presumido numa guerra e alvo dessas armas. O americano promete atacar, seja de forma mais pontual, seja para derrubar o regime.

Leia Também: Cuba denuncia tentativa de infiltração de grupo dos EUA “com fins terroristas”

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