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Pedi a Deus para ter uma morte digna, diz mulher resgatada viva no mar em Ilhabela

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Durante o período à deriva, ela conta que sofreu esgotamento físico, perdas de consciência e alucinações. Chegou a pedir a Deus por uma “morte digna”. O colega que pilotava não resistiu e se afogou. O corpo de Dheorge Pereira Bernardino, 28, foi encontrado pela Marinha no dia 27. “Fiz tudo o que pude para salvá-lo.”

O que deveria ser apenas um passeio de moto aquática após uma confraternização em uma lancha transformou-se em tragédia.

Bruna, nascida e criada na vizinha São Sebastião, diz ter aceito o convite de Dheorge, que tinha conhecido pouco antes, para dar uma volta.

Sem celulares e já afastados do grupo, os dois perceberam que a moto aquática apresentava problemas. “A correnteza ia levando a gente”, conta. Com coletes salva-vidas, chegaram a pular e a nadar em busca de ajuda, mas retornaram.
Já durante a noite de domingo, o aparelho começou a se inclinar e se encher de água. Uma sequência de ondas acabou derrubando os dois. Na escuridão, a motocicleta se foi.

Bruna conta que eles ainda tiveram tempo de encontrar uma cordinha com ganchos num compartimento e decidiram prender os coletes um ao outro para evitar a separação. Duas blusas também foram achadas na moto e vestidas pela dupla.

‘NADANDO PARA A MORTE’

Na manhã seguinte, Bruna relata que tentaram sinalizar para um helicóptero, mas não foram vistos. Dheorge chegou a brincar sobre aves que voavam próximas, dizendo que tentaria capturá-las para comer.

Com o passar das horas, segundo Bruna, o colega começou a sentir dores e câimbras. Ela ainda tentou nadar até um barco avistado ao longe enquanto Dheorge se poupava, mas não teve êxito.

À noite, sob chuva e neblina, os dois passaram a apresentar sinais de desorientação. “Ele perguntava: ‘Por que você não quer atravessar os portões?’. Falava que ia chamar o Uber. Eu também estava alucinando e via minha namorada chegando com uma maçã na mão.”

Bruna conta que o estado físico de Dheorge piorou. Sem energia para bater as pernas, ele alternava momentos de lucidez e confusão. “Voltava a falar dos portões, tentava abrir o colete. Eu dizia: ‘Vamos sair dessa’.”

Foi então que Bruna decidiu nadar em direção a um ponto que avistava, ainda sem saber que se tratava da Ilha de Búzios -perto da qual seria resgatada horas depois. Sozinha no mar, passou a ter outros delírios.

“Vi minha mãe dançando com um pano verde. Um tubarão preto, outro cinza. Uma torre de telefone, amarela e enferrujada, em cima de uma base de cimento. Tinha gente lá”, relembra. “Eu falava com uma mulher e ela respondia que era seguro. Comecei a nadar em direção à torre, mas bati a mão na água e disse para mim mesma: ‘É mentira!’.”

“Eu estava nadando para a morte”, diz Bruna. Sem água potável nem alimento, chegou a pedir: “Deus, faça com que eu tenha uma morte digna. Não aqui com fome e sede.”

CAMARÕES DOS SALVADORES

Ao amanhecer, Bruna teve novas alucinações -como a imagem da filha, que fará cinco anos em julho, afundando atrás dela. Foi então que observou um barco de pescadores -e era real. “Senti ser minha última tentativa.”

“Olhei para o céu, recorri a Deus, Maria, Buda, Oxalá, Zé Pelintra Falei o nome de divindades, de entidades… Queria força para nadar um pouco mais. Consegui”. Ao chegar mais perto, gritou. “Ouvi alguém lá dizer: ‘Tem uma pessoa! Uma mulher! Calma, a gente vai até você!'”

Resgatada por Alex dos Santos e o filho, Alan, Bruna pediu que procurassem por Dheorge imediatamente. Recebeu água, comida e roupas secas antes da chegada dos bombeiros marítimos para os quais repetiu a necessidade de encontro do colega.

Encaminhada ao Hospital Municipal Mário Covas, em Ilhabela, recebeu alta dois dias depois. Hoje, segue acompanhada por médicos, psicólogos e psiquiatras.

Ela lamenta a morte de Dheorge. “Estudo para salvar pessoas. Queria ter tido mais força para ajudá-lo”, diz ela, que é formada em técnico de enfermagem.
Bruna suspendeu atividades para passar um tempo em casa. Dias atrás, ao lado de amigas, fez macarrão com camarões -pescados por Alex e Alan, que ela já reencontrou duas vezes desde o salvamento. “Alex até me manda seus vídeos de pesca.”

Apesar de nadar desde criança, reencontrar o mar não está nos planos imediatos. “Minha namorada e meus pais viveram um luto que não aconteceu. O que quero é voltar a frequentar uma igreja para agradecer pela vida.”

O responsável pela moto aquática foi indiciado sob suspeita de homicídio culposo (sem intenção de matar) majorado, falsidade ideológica e exercício ilegal de atividade. O nome dele não foi informado. Ninguém foi preso.

Leia Também: Ex-jogador Leandro ‘Guerreiro’ é preso por dívida de pensão alimentícia

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