Áudio atribuído ao vereador José Antônio Lopes Costa, o ”Zezinho Boca Preta” (UB), revela confissão de um esquema de ”rachadinha” entre ele e ao menos duas assessoras do gabinete, em Paranaíba. Na gravação, o parlamentar pede que as envolvidas não confessem nada para que tudo ”desse certo”.
A autoria da gravação entre Boca Preta e duas servidoras é desconhecida. As mulheres se mostram desesperadas pelo fato de a prática criminosa ter voltado a ser comentada nos bastidores da política na cidade. O parlamentar se irrita ao saber que elas – temerosas com o que pode ocorrer – conversaram com advogados e outras pessoas em busca de orientação.
Assessoras de vereador são pressionadas (Foto: Instagram)
Em diversos trechos, Zezinho admite que ficou com dívidas de campanha e precisava que as assessoras lhe devolvessem parte do salário que recebiam. Ele tenta tranquilizar uma das interlocutoras, dizendo que recebeu poucas transferências bancárias, sendo algumas de R$ 20 e R$ 40. Mas é desmentido prontamente.
”Tem PIX meu de mil reais pra você, Zezinho. Quando a gente te devolvia o dinheiro, ou eu passava para o Eduardo, que sacava 15 minutos depois ou para o Alex te entregar”, revelou uma das interlocutoras.
A gravação sugere que o assunto estava ”adormecido” na cidade, mas que teria voltado à tona e até chegado a Campo Grande. Também haveria iminência de ser investigado pelo MPE-MS. Inclusive há citação de reunião de um advogado do vereador com um promotor de Justiça.
No entanto, Boca tranquiliza a dupla a todo momento, garantindo que ”não daria nada” em razão de que, quem teria feito a denúncia, identificado como ”Alex”, a fez de modo verbal, sem apresentar provas documentais.
”Não tem foto de vocês… não tem print, não tem nada”, brada Zezinho às assessoras, garantindo que a denúncia era fraca e seria arquivada. Em outro trecho, Boca sugere à assessora mais aflita como ela iria justificar à mãe, os pagamentos feitos para ele.
”É só falar assim: ‘mãe, antes de eu entrar, o Zé ficou com conta da política e ele explicou pra nós que ia pedir gratificação para a gente ajudar ele em algumas coisas. Tanto que agora acabou esse negócio”, ensinou o parlamentar.
O registro de áudio deixa nítido que Boca Preta, ao mesmo tempo que tranquiliza, amedronta as mulheres, a fim de que elas atendam suas orientações.
”O promotor vai perguntar para vocês: por que você aceitou? Você não sabia que era ilegal, então por que não passou (o cargo) para outra pessoa?”, disse o legislador às comissionadas.
Estranho
Em dado momento, Zezinho pressiona as profissionais a assinarem um termo, no qual elas assumiriam que nunca pagaram nada a ele. O objetivo do documento seria levar ao promotor de Justiça e ajudar a arquivar a denúncia feita por um membro do esquema. Mas uma se nega a assinar.
”Vai me desculpar, mas não assino não. Pode me exonerar, se quiser”, enfatizou uma jovem ao vereador. Ele responde: ”Se você não assinar, vai condenar nós”, observou Boca Preta.
Boca Preta teme perder mandato por causa de ”rachadinha” (Foto: Instagram)
Orientação
Na conversa, as assessoras citam trechos de orientação jurídica dada por um advogado indicado pelo vereador, um dia antes de falar com Boca Preta. Elas destacaram que o profissional do Direito apresentou e leu o termo de negação de devolução dos valores ao vereador.
As duas disseram ter questionado o advogado se haveria chances desse crime ser apurado pelo MPE. Elas disseram que ele, inicialmente, minimizou as chances de algo acontecer, mas depois botou em dúvida se a situação poderia “complicar”.
A dúvida que paira na conversa entre elas, o advogado e também com Boca Preta é se o denunciante Alex tem em mãos registros em vídeo, foto ou comprovantes da movimentação bancária que comprovariam a ”rachadinha”.
A todo momento, o vereador pede que as mulheres se acalmem e evitem qualquer comentário sobre o tema na cidade. Assim, o assunto tornaria a ”morrer”, mesmo após denúncia feita ao Ministério Público. O parlamentar ressalta que, se for investigado, a situação ficaria muito ruim para ele, que perderia o mandato e ainda ficaria com dívida impagável.
Entramos em contato com o vereador e o advogado via redes sociais. O espaço segue aberto para manifestação deles e dos demais citados.
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