Joseane Oliveira Nunes, de 33 anos, 22ª vítima de feminicídio em Mato Grosso do Sul em 2026, já havia sido vítima de agressões cometidas pelo companheiro, Lourival da Cruz Neto, de 19 anos. Ele foi preso nesta quinta-feira (20), horas após matar a mulher. O crime ocorreu na noite de quarta-feira (19), no bairro Tiradentes, em Campo Grande.
À reportagem, dona Pascoalina de Oliveira, de 64 anos, e mãe da vítima, contou que mora em Porto Murtinho, em uma comunidade ribeirinha, e que não tinha contato com a filha desde junho.
“Ela me ligava quase todo dia, eu falava com ela. Agora eu acho que ele tava proibindo ela de falar com a família”, disse a idosa.
Além disso, Pascolina afirmou que a filha já havia sido vítima de agressão por parte do suspeito e que eles até chegaram a terminar o relacionamento. Em um desses episódios, Joseane, que estava grávida de 9 meses, perdeu o bebê.
Segundo a Polícia Civil, a vítima procurou a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) no mês passado, ocasião em que pediu medida protetiva de urgência. O benefício foi concedido, mas revogado há poucos dias a pedido da vítima.
“A Polícia Civil esclarece que a revogação da medida não caracteriza renúncia à proteção estatal, não configura conduta culposa e não estabelece qualquer responsabilidade da vítima pelo crime praticado contra ela. O culpado é sempre o agressor. A situação deve ser compreendida dentro da dinâmica própria da violência doméstica, conhecida como ciclo da violência, que pode envolver episódios de agressão, seguidos por períodos de reconciliação, promessas de mudança e aparente tranquilidade. Essa dinâmica pode dificultar o rompimento da relação violenta e influenciar decisões da vítima, inclusive quanto às medidas de proteção. Por isso reforçamos a importância da manutenção da Medida Protetiva”, esclareceu o órgão.
A mãe de Joseane contou que tentou convencer a filha a não reatar o relacionamento, devido ao histórico agressivo do autor.
“Eu falei pra ela, você vai voltar com ele? Pensa bem minha filha”, disse.
Joseane deixou três filhos, de 11, 15 e 17 anos, frutos do primeiro casamento. Atualmente, todos moravam com o pai. Dona Pascoalina receberá ajuda da Associação de Ribeirinhos de Porto Murtinho para trasladar o corpo da filha até a cidade, onde será enterrado próximo da família.

O crime
A vítima discutia com o companheiro dentro de casa, quando foi atingida por golpes de foice na cabeça, na noite de quarta-feira (19). Após o crime, o suspeito fugiu de bicicleta.
Policiais da Deam (Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher) efetuaram a prisão nesta quinta-feira (20), após irem à Ceasa (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), local em que o autor cumpria diárias.
Lá, foram informados sobre familiares que moravam em Jaraguari, cidade que fica a 47 quilômetros da Capital. Ele, que é acusado de matar a mulher a golpes de foice na cabeça, foi capturado em um posto de combustível.
A apuração do paradeiro foi feita em parceria com policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar.
Ficha
Lourival possui passagens pela polícia e responde a outros processos. Um dos casos mais graves ocorreu em julho de 2025, quando ele foi denunciado por tentativa de homicídio qualificado. Conforme a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o crime teria sido motivado por um desentendimento envolvendo uma aposta durante uma partida de sinuca.
Segundo o processo, após a discussão, Lourival teria entrado sem autorização na residência da vítima, no Bairro Mata do Segredo, e permanecido escondido à espera de sua chegada. Quando o homem retornou para casa, foi surpreendido e atacado com golpes de arma branca.
A ficha criminal do suspeito também aponta o registro de uma medida protetiva relacionada a uma criança, em dezembro de 2024. Conforme consta nos registros judiciais, o procedimento está relacionado a uma ocorrência investigada na Vara da Infância e da Adolescência.


