Mesmo com a queda do desmatamento em Mato Grosso neste ano, cerca de um em cada três hectares de vegetação nativa derrubados no estado não tinha autorização ambiental. No primeiro semestre de deste ano, 31% da área desmatada estava nessa situação, segundo relatório da Agenda Socioambiental de Mato Grosso, divulgado pelo Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT).
Entre janeiro e junho, Mato Grosso perdeu 41.245,5 hectares de vegetação nativa, uma redução de 37% na comparação com o mesmo período de 2025. Apesar da queda, o levantamento chama atenção para a permanência do desmatamento sem autorização em patamar semelhante ao registrado no ano passado.
Em 2025, 34% de toda a área desmatada no estado não possuía autorização. No primeiro semestre deste ano, a proporção caiu apenas três pontos percentuais, para 31%. Segundo o Observa-MT, isso mostra que, embora a área total derrubada tenha diminuído, a participação das supressões sem autorização permaneceu praticamente estável.
MT perdeu mais de 1,2 milhão de hectares desde 2019
O balanço também apresenta um retrato do desmatamento acumulado nos últimos anos. Entre 2019 e junho de 2026, 1.253.747,71 hectares de vegetação nativa foram suprimidos em Mato Grosso.
Com mais de 1,2 milhão de hectares perdidos no período, Mato Grosso aparece na terceira posição entre os estados que mais desmataram na Amazônia Legal, conforme os dados apresentados pelo Observa-MT.
O documento aponta ainda que o estado apresenta a maior velocidade média de desmatamento por alerta do país, com 0,78 hectare suprimido por alerta a cada dia. Para o Observa-MT, o indicador mostra que, uma vez iniciado, o desmatamento avança em ritmo que pode superar a capacidade de resposta da fiscalização.
96% do desmatamento ocorreu em imóveis rurais
Outro dado destacado pelo relatório é a concentração do desmatamento em propriedades cadastradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Em 2025, 96% da área desmatada em Mato Grosso estava dentro de imóveis registrados no CAR. A mesma proporção foi observada entre janeiro e junho de 2026.
O balanço aponta ainda um passivo ambiental de 329,5 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de 4,63 milhões de hectares de Reserva Legal em propriedades cadastradas no CAR.
Sema aponta divergência em dados e diz que 93% da área teve autorização ou fiscalização
Ao Primeira Página, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) afirmou que os dados do balanço do Observa-MT precisam ser analisados considerando as diferentes metodologias, períodos e bases utilizadas.
A pasta também ponderou que uma área desmatada sem autorização não necessariamente ficou sem fiscalização. Segundo a secretaria, o desmate pode ter ocorrido sem licença e, posteriormente, ter sido identificado, autuado ou embargado pelos órgãos ambientais.
Como contraponto ao dado de que 34% da área desmatada em 2025 não possuía autorização, a Sema informou que, segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD-2025), do MapBiomas, 93% da área desmatada em Mato Grosso naquele ano estava abrangida por autorização ou teve algum tipo de ação de fiscalização estadual ou federal registrada.
A secretaria também apontou uma divergência no número de alertas apresentado pelo Observa-MT. O balanço afirma que foram identificados 15.777 alertas de desmatamento em 2025. Segundo a Sema, porém, o RAD-2025 registra 1.577 alertas em Mato Grosso.
A pasta ressaltou ainda que o número de alertas não pode ser comparado diretamente à quantidade de autos de infração ou embargos. Isso porque uma única ação de fiscalização pode abranger várias áreas e, consequentemente, mais de um alerta.
Além disso, nem todas as áreas são de responsabilidade do órgão ambiental estadual. Alertas registrados em Terras Indígenas e Unidades de Conservação federais, por exemplo, podem envolver a atuação de órgãos federais, como Ibama, ICMBio e Funai.
Mais de 4 mil autuações e R$ 2,9 bilhões em multas
A Sema informou que realizou 4.196 autuações relacionadas a desmatamento ilegal e incêndios florestais em 2025, além de embargar cerca de 121 mil hectares e aplicar R$ 2,9 bilhões em multas. Segundo a secretaria, 80% das ações de fiscalização foram presenciais e 20% realizadas de forma remota.

Para 2026, o Estado afirma ter destinado aproximadamente R$ 134 milhões ao combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios florestais. O investimento contempla monitoramento por satélite, fiscalização, responsabilização dos infratores, prevenção e estrutura operacional.
A secretaria também apresentou dados do Deter/Inpe que indicam redução de 25% no desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, em relação ao período anterior. Na comparação com a média registrada entre 2016 e 2025, a queda apontada é de 41%.
Para a Sema, os números sobre desmatamento devem ser analisados em conjunto com os registros de autorizações e das ações de fiscalização estaduais e federais.

