segunda-feira, setembro 21, 2026

Patas e mais patas: haja saúde mental!

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Estamos num período tenso — no olho do furacão, no meio da tempestade ou coisa que o valha. São dias que antecedem a eleição. Não é uma eleição como antigamente, quando adversários políticos contavam com eleitores que apenas queriam comemorar a vitória e com perdedores que aceitavam a derrota.

A população dividia-se entre situação e oposição, discutia-se isso naturalmente, como se discute futebol ou religião. Havia algumas exaltações de ânimo, pontuais e naturais, nada que criasse um clima de ódio ou inimizade, como vem ocorrendo hoje, quando há uma polarização incontestável de dois lados, que mal permite que outros candidatos, distintos dos dois grupos principais, sejam vistos ou até preferidos.

O país está polarizado a partir dos candidatos, e essa polarização estende-se aos eleitores. Alguns estão radicalmente polarizados: são os extremistas, que divulgam discursos de ódio e contaminam o povo, que pode aderir ao seu ponto de vista ou abominá-lo. Em qualquer situação, há tensão, um passo para um quadro de ansiedade ou para outra enfermidade mental, desencadeada ou agravada por esse movimento político atual.

Até pouco tempo, nossos atendimentos profissionais, quando motivados por algo externo, referiam-se principalmente a perdas de entes queridos, conflitos conjugais ou em outros relacionamentos, problemas no trabalho e dificuldades financeiras.

Hoje, somam-se a isso as divergências políticas, que não são um simples desacordo de pontos de vista, mas uma verdadeira batalha de posições contrárias, uma certeza inabalável de cada lado, como se o outro lado não existisse ou fosse necessariamente eivado de terror, um terror vendido por alguém ou pelas redes sociais, que nutrem cada lado, sempre o mesmo, num movimento cíclico em que alimentam seus seguidores e são alimentadas por eles.

É sabido que os algoritmos tendem a reforçar bolhas, estimular o ódio e transformar divergência em inimizade.

Assim, o ódio nasce, o ódio cresce e, paralelamente, os problemas emocionais surgem ou se agravam. Dissemina-se uma epidemia — ainda entrincheirada em lados opostos — de inverdades, ataques e ódio. O prejuízo emocional, infelizmente, é o resultado de tudo isso. O controle dessa epidemia parece cada vez mais distante; o tratamento também não está fácil de alcançar, até porque todos acreditam que tudo vai passar quando seu lado vencer.

Temos visto sintomas como insônia, exaustão, medo de se posicionar, conflitos familiares, afastamento de amigos. Há adoecimento de quem tenta convencer e de quem apenas convive com a enxurrada de informações plenas de ódio, que vêm de ambos os lados.

A sociedade está doente; afinal, uma epidemia pode atingir todos nós, inclusive os médicos. Estes são aqueles que deveriam tratar esse mal, mas, infelizmente, muitos não conseguem, porque estão contaminados e, em vez de tratar o mal que atinge a sociedade, estimulam-no. O mesmo acontece com líderes religiosos.

Se formos a uma reunião de esquerdistas radicais, o assunto será o que chamam de mal da humanidade: os “direitopatas”. Se resolvermos ir a uma reunião de direitistas radicais, o assunto será o que chamam de mal da humanidade: os “esquerdopatas”. Se avaliarmos melhor, não há “esquerdopatas” nem “direitopatas”; o que existe é uma camada expressiva da população que ouso chamar de “serumanopata”

. Não se trata de diagnóstico clínico, mas de uma provocação: uma humanidade adoecida pelo ódio, pela intolerância e pela incapacidade de conviver com quem pensa diferente. Divergência política não é doença; o problema é a radicalização e o discurso de ódio.

Cuidar da saúde mental não é alienar-se, é pensar, defender ideias e ter condições de conviver com ideias diferentes, sem adoecer e sem provocar adoecimento em outras pessoas. É necessário tomar o devido cuidado com as informações provenientes das redes sociais, muitas são falsas e criadas com o objetivo de disseminar o ódio.

Pode ser preciso buscar apoio psicológico e em muitos casos o suporte psiquiátrico pode ser necessário. Afinal de contas, se o ódio é contagioso, o cuidado adequado com a saúde mental também pode ser.

Ainda assim, é muita pata, e haja saúde mental! Boa eleição para todos, que vençam os mais votados e que não se perca o que ainda nos resta de humanidade.

FONTE: PRIMEIRA PÁGINA

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