Manaus voltou a enfrentar dias de forte presença de fumaça e piora na qualidade do ar em setembro, em meio ao período de estiagem e à ocorrência de queimadas na Amazônia. O cenário tem provocado desconforto entre moradores e ampliado a preocupação com crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.
Na quarta-feira, o monitoramento em tempo real da IQAir apontou concentração de 41,3 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de partículas no ar da capital amazonense, faixa considerada prejudicial para grupos sensíveis. Em episódios registrados anteriormente no mês, entretanto, os índices foram significativamente mais altos.
No dia 17 de setembro, por exemplo, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) registrou 129,5 µg/m³ na região da Compensa, na Zona Oeste, classificação considerada péssima. Foi a terceira vez em menos de dez dias que Manaus amanheceu coberta por fumaça.
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Qualidade do ar em Manaus não está saudável — Foto: IQAir
Fumaça provoca sintomas e exige cuidados
A presença de fumaça tem sido acompanhada de relatos de tosse, irritação nos olhos e ressecamento da garganta. Em instituições que atendem pessoas idosas, os cuidados foram reforçados para reduzir a exposição aos poluentes.
Na Fundação Dr. Thomas, a enfermeira Núbia Rodrigues relatou que os idosos deixaram de realizar atividades ao ar livre, enquanto as janelas permaneceram fechadas e a hidratação foi intensificada.
A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) orienta a população a diminuir o tempo de exposição à fumaça, principalmente crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas. Também recomenda evitar exercícios físicos ao ar livre durante os períodos de maior concentração de poluentes, manter a hidratação e proteger olhos e nariz.
Entre os sinais que exigem atenção estão tosse, irritação ou dor de garganta, ardência e lacrimejamento dos olhos, coriza, dor de cabeça, chiado no peito, falta de ar e agravamento de crises de asma. Em situações mais graves, a recomendação é procurar atendimento médico.
O Hospital Universitário Getúlio Vargas também alertou que a fumaça contém gases e partículas capazes de atingir as vias respiratórias e provocar sintomas inclusive em pessoas sem doenças pulmonares.
Queimadas em outras regiões contribuem para a fumaça
De acordo com informações da Prefeitura de Manaus, parte da fumaça que chega à capital é proveniente de áreas de queimadas na Região Metropolitana, incluindo municípios como Itacoatiara, Careiro da Várzea, Iranduba e Manacapuru.
A meteorologista Andrea Ramos explica que, durante a estação seca, a redução das chuvas, as temperaturas elevadas e a menor umidade da vegetação favorecem a propagação do fogo. Os ventos também podem transportar os poluentes por longas distâncias.
Por isso, a quantidade de fumaça observada em Manaus não depende exclusivamente do número de focos existentes dentro do município. A concentração de partículas também está relacionada à extensão e à duração dos incêndios, ao tipo de vegetação atingida e às condições atmosféricas responsáveis pela dispersão dos poluentes.
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Selva registrou pior nível de poluição do ar em Manaus. Os pontos vermelhos mostram onde a qualidade o ar está péssima na tarde desta quarta-feira — Foto: Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva)
Fenômeno é conhecido como névoa seca
A camada esbranquiçada ou acinzentada que tem encoberto o céu da capital está associada ao fenômeno conhecido como névoa seca. Ele ocorre quando partículas muito pequenas resultantes da combustão permanecem suspensas na atmosfera, reduzindo a visibilidade e alterando a aparência do céu.
A circulação dos ventos pode transportar essas partículas de áreas distantes, enquanto condições de pouca ventilação favorecem o acúmulo de poluentes próximo à superfície.
Manaus já passou por episódios severos de fumaça em anos anteriores, especialmente durante as estiagens de 2023 e 2024. Segundo Andrea Ramos, porém, não é possível afirmar que o episódio de 2026 seja mais grave sem uma comparação adequada entre concentração de poluentes, duração dos eventos e extensão das áreas afetadas.
Um estudo científico citado pela meteorologista identificou concentração de 314 µg/m³ no sul de Manaus durante a crise de fumaça registrada em outubro de 2023. O número, entretanto, não pode ser comparado diretamente com medições atuais, já que os locais e os métodos de monitoramento são diferentes.
Região Metropolitana também registra índices elevados
Os episódios de setembro não ficaram restritos à capital. Em 17 de setembro, sensores também apontaram concentrações elevadas em municípios da Região Metropolitana.
Manacapuru registrou 114,7 µg/m³, Manaquiri chegou a 126,8 µg/m³ e Iranduba apresentou 107,4 µg/m³. Na mesma ocasião, Manaus chegou a 129,5 µg/m³ na Compensa.
Na manhã daquele dia, a fumaça já era percebida em diferentes áreas da capital desde as primeiras horas, com relatos de forte cheiro no ar. O episódio foi o terceiro registrado em menos de dez dias, depois de ocorrências semelhantes nos dias 9 e 13 de setembro.
A Prefeitura de Manaus informou que mantém ações de prevenção, fiscalização e monitoramento das queimadas, além do acompanhamento das condições meteorológicas e da qualidade do ar.
Com a continuidade do período seco, a concentração de fumaça pode variar conforme a ocorrência de queimadas, a direção dos ventos, a umidade e as condições de dispersão atmosférica.

