A Justiça de Mato Grosso do Sul determinou o afastamento de toda a diretoria corporativa, integrantes do Conselho de Administração e a supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME) da Santa Casa de Campo Grande. A decisão judicial também nomeou o administrador Luiz Alberto Hiroki Kanamura como gestor provisório da instituição pelos próximos 180 dias, prazo que poderá ser prorrogado.
A medida foi assinada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, após pedido apresentado pelo Ministério Público Estadual no âmbito de uma ação cautelar.
Na decisão, o magistrado aponta que a Santa Casa enfrenta uma crise considerada histórica e sem precedentes, marcada por suspeitas de malversação de recursos públicos, falhas de governança, falta de transparência, ampliação de despesas com pessoal, omissão na prestação de contas e indícios de corrupção investigados pelas autoridades.
Diretoria proibida de retornar
Além do afastamento imediato dos dirigentes e conselheiros, a Justiça proibiu a recondução da atual diretoria em futuras eleições durante a vigência da medida cautelar. Os afastados também não poderão entrar nas dependências da Santa Casa nem da operadora Santa Casa Saúde, incluindo a unidade de Dourados.

A decisão ainda determina a comunicação aos bancos e cartórios para impedir qualquer movimentação administrativa ou financeira pelos dirigentes retirados de seus cargos.
Foram afastados:
- Alir Terra Lima, diretora-presidente da Santa Casa (já afastada cautelarmente em razão da prisão preventiva);
- Heitor Miguel Scheibeler, presidente em exercício e conselheiro;
- Ivan Araújo Brandão, vice-presidente e conselheiro;
- Valdir Osvaldo Junior, diretor-secretário e conselheiro;
- Marcos Alceu da Silva Villalba, diretor de finanças;
- Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, diretor de finanças adjunto e conselheiro (já afastado cautelarmente em razão da prisão preventiva);
- Rinaldo Hakme Romano, diretor adminstrativo financeiro (já afastado cautelarmente em razão da prisão preventiva);
- Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo (já afastado cautelarmente em razão da prisão preventiva);
- João Nelson Lyrio, diretor financeiro adjunto e conselheiro;
- Luiz Borges Bossay, secretário adjunto e conselheiro;
- Arly Rosa Serra, conselheiro;
- Helio Gustavo Bautz Dallacqua, conselheiro;
- Heitor Rodrigues Freire, conselheiro;
- Levi Marcos Gomes da Cruz, conselheiro;
- Sidney Roberto Rivas, conselheiro;
- Carlos Ricartes de Oliveira, conselheiro;
- Mario Antonio Cavinatto de Mello, conselheiro;
- Sandra Regina Ferreira Gonçalves, conselheira;
- Onésio Bueno de Freita, conselheiro;
- Monique Gregório de Oliveira, supervisora do serviço de arquivo médico e estatística (já afastada cautelarmente em razão da prisão preventiva).

Em um dos trechos mais duros da decisão, o magistrado afirma que a Santa Casa vive há anos uma crise provocada por “desvios, incompetência, corrupção e falta de transparência”.
Operação Antidotum acelerou crise
A intervenção ocorre menos de duas semanas após a deflagração da Operação Antidotum, conduzida pelo Ministério Público por meio do GAECO e do GECOC.
A investigação começou a partir de suspeitas em um contrato da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande para a digitalização de prontuários médicos. O acordo previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões.
Risco de paralisação dos serviços
A decisão judicial também revela que a crise administrativa tem reflexos diretos na assistência prestada aos pacientes.
Documentos anexados ao processo apontam falta de materiais cirúrgicos, roupas privativas para centros cirúrgicos, equipamentos, instrumentais e outros insumos considerados essenciais para o funcionamento do hospital.

Outro documento citado pelo juiz mostra que a empresa responsável pelos serviços de anestesiologia notificou formalmente a Santa Casa por falta de pagamento dos honorários desde maio de 2026 e comunicou a rescisão contratual, com possibilidade de interrupção dos atendimentos a partir de 1º de outubro.
Demonstrando risco à assistência médica e a continuidade dos serviços prestados pelo maior hospital de Mato Grosso do Sul.
Gestor terá amplos poderes
Com a intervenção, Luiz Alberto Hiroki Kanamura passa a responder pela administração da instituição. Entre as atribuições estão representar a Santa Casa judicial e extrajudicialmente, reorganizar equipes, renegociar contratos, contratar ou demitir funcionários, revisar atos sob investigação, negociar com fornecedores e elaborar um plano de recuperação administrativa e financeira.
O gestor também deverá prestar contas mensalmente ao Judiciário, detalhando receitas, despesas, contratos, aplicação de recursos públicos e medidas adotadas para garantir o funcionamento do hospital.


