O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa teria ocupado uma posição de comando no esquema de desvio de drogas enquanto chefiava a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico). Conforme documento do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) encaminhado ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), caberia a ele, dar respaldo à atuação de policiais que localizavam e apreendiam cargas destinadas posteriormente ao tráfico.
A representação aponta que os agentes públicos desviavam entorpecentes de duas formas: deixando parte da quantidade apreendida fora do boletim de ocorrência ou retirando drogas já guardadas em depósitos policiais.
Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, seria o elo entre os policiais e os compradores. De acordo com o Gaeco, ele fornecia informações sobre cargas e depósitos, negociava quanto da droga seria repassado ao grupo e organizava a venda.
Delegado
O Gaeco descreve Hoffman como responsável pela “chancela institucional” do grupo e o aponta como um de seus principais beneficiários. O pedido relaciona o delegado a ações realizadas por equipes da Denar e a conversas em que investigados discutem a divisão de drogas apreendidas.
Um dos episódios examinados é a apreensão de 643 quilos de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024. Hoffman chefiava a equipe formada também pelos investigadores Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Luiz Carlos de Souza e Douglas Tobias. Nas mensagens reunidas pelo Ministério Público, “LK” negocia o recebimento de uma parcela da carga, menciona percentuais de 20% e 30% e afirma que se reuniria com um homem identificado pelo Gaeco como Hoffman para acertar a divisão.
O pedido cita ainda movimentações financeiras e despesas patrimoniais do delegado, analisadas pelos investigadores como possíveis indícios de benefício econômico.
Hoffman se apresentou à Corregedoria da Polícia Civil na tarde de quinta-feira (24) e ficou preso. Na ocasião, o advogado Amilton Ferreira disse ao TopMídiaNews que ainda não havia tido acesso aos autos e que pretendia pedir a revogação da prisão.
Quem estaria nas apreensões
O pedido coloca os investigadores Augusto Torres Galvão Florindo, Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva no núcleo operacional. Segundo o Gaeco, agentes desse grupo buscavam informações sobre drogas, participavam de apreensões e viabilizavam o repasse de entorpecentes.
A representação não atribui a todos os policiais a participação em cada ocorrência. Ela descreve episódios diferentes para identificar as suspeitas sobre cada um.
Neverson Vieira de Araújo é apontado pelo Ministério Público como o policial que teria aproximado “LK” do esquema. Neverson e Nilton Cesar Sales dos Santos participaram de uma apreensão de 30 quilos de pasta-base de cocaína em novembro de 2022. O Gaeco relaciona essa carga a conversas posteriores sobre uma oferta de droga a traficantes.
Roberto Palmeira da Silva também é citado nas suspeitas envolvendo entorpecentes que passaram pela Denar em 2022. Conforme o apurado Neverson, Nilton e Roberto são relacionados pela investigação a tratativas sobre 326 quilos de cocaína apreendidos em dezembro daquele ano. A reportagem registrou que Roberto tinha mandado de prisão, mas não havia sido localizado inicialmente; segundo a defesa, ele se recuperava de uma cirurgia e deveria se apresentar.
Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza e Nelson Ricardo Barros de Oliveira integraram a equipe da apreensão em Bela Vista, chefiada por Hoffman. O Gaeco relaciona mensagens de “LK” à suspeita de desvio de parte da cocaína. No caso de Nelson, a representação também examina áudios encontrados em seu backup e depósitos em espécie feitos meses depois. Esses elementos são apresentados pelo órgão como indícios e exigem a análise da participação individual de cada agente.
Augusto Torres Galvão Florindo e Marcos André Santos Chaves aparecem em outra ocorrência, realizada no Jardim Los Angeles, em Campo Grande, em outubro de 2025. Antes da ação, uma informação repassada a “LK” mencionava entre 40 e 60 quilos de maconha em uma residência. O boletim policial registrou a apreensão de 3 quilos. Com base nessa diferença e nas conversas anteriores à abordagem, o Gaeco suspeita de desvio.
Consultas a sistemas e monitoramento
A investigação também atribui funções ao policial militar Alison Lemes Bezerra, chamado de “Daguinha”, ao policial penal Vitor Ribeiro Venancio dos Santos e ao policial militar Thiago Bezerra Laurentino, conhecido como “Grandão”. Eles são citados no monitoramento de imóveis e veículos ligados a cargas de drogas que interessavam ao grupo.
No caso de Alison e Vitor, o Gaeco apresenta auditorias de consultas a sistemas restritos da segurança pública sobre uma pessoa e um veículo que “LK” queria localizar. A suspeita é de que dados acessíveis aos agentes por causa de seus cargos tenham sido usados para ajudar no monitoramento. O Ministério Público afirma ainda que Alison repassou a Lucas um veículo com compartimento oculto, apontado na representação como adequado ao transporte de drogas.
A Operação Infiltrados foi deflagrada na quinta-feira (24) para cumprir 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos. Nesta sexta-feira (25), a Corregedoria-Geral da Polícia Civil afastou compulsoriamente oito policiais civis presos, com recolhimento de armas e suspensão de acesso a sistemas policiais.

