Trata-se de mais uma demonstração do vaivém de Trump em relação a Havana, uma vez que ora ele endurece o discurso, ora indica que está perto de um acordo -como costuma fazer também em outras crises geopolíticas, como a guerra no Irã.
Em março, por exemplo, o presidente afirmou a jornalistas que acreditava que teria “a honra de tomar Cuba” e que podia “fazer o que quiser” com a ilha, à qual se referiu como uma “nação falida”. Dois meses depois, em maio, disse acreditar que estava perto de um acordo diplomático, independentemente de haver ou não uma mudança de regime.
Negar agora a necessidade do uso das Forças Armadas é ainda uma mudança de tom em relação ao que ele ameaçou fazer nesta mesma semana. Em discurso na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (22), Trump havia ameaçado o emprego de força militar na América Latina e no Caribe.
Em sua fala, os alvos principais seriam os cartéis de drogas do continente, que ele comparou ao Estado Islâmico, reforçando a narrativa de combate de Washington contra o narcoterrorismo -a mesma que ele usou para justificar ataques a embarcações que mataram mais de 230 pessoas, sem evidências de que eram realmente criminosas.
Mas Trump também citou Cuba em sua fala na ONU. Além de dizer que seu secretário de Estado, Marco Rubio, estaria tentando chegar a um acordo com a ilha, voltou a afirmar seus motivos para desejar por uma mudança de comando em Havana.
“O regime cubano também passou décadas coordenando ações com radicais de esquerda e redes comunistas aqui nos EUA”, disse. “Como detalhou o nosso Departamento de Estado, eles cultivaram laços com grupos subversivos e radicais, como o Partido Comunista dos EUA, a Antifa e os Socialistas Democráticos da América.”
A delegação cubana chegou a deixar a assembleia durante as falas do presidente americano. O ministro das Relações Exteriores de Havana disse, após o discurso, que Trump propaga mentiras. “O governo dos EUA é incapaz de aceitar que Cuba é -e tem o direito de ser- um país plenamente soberano e independente”, escreveu Bruno Rodríguez na rede social X.
O maior exemplo do que Trump pode tentar fazer com Cuba é o que ele fez em janeiro com a Venezuela. Militares americanos conduziram uma operação que capturou o ditador Nicolás Maduro para levá-lo sob custódia a Nova York, onde hoje ele responde à Justiça dos EUA por acusações de tráfico de drogas. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, é hoje a líder interina da ditadura e tem conduzido a sua gestão sob a tutela de Washington.
A população de Cuba, por sua vez, tem sofrido cortes constantes de energia devido à limitação das sete usinas termelétricas que constituem a espinha dorsal da rede nacional.
A situação se agravou também desde janeiro, quando o governo americano impôs um bloqueio petrolífero e outras sanções ao país. A medida dificulta o abastecimento de combustível nessas usinas, que geralmente funcionam com diesel importado.
As autoridades da UNE (União Elétrica de Cuba) afirmam que, se o país dispusesse desse combustível, poderia restabelecer sua rede elétrica com maior rapidez. Nas últimas semanas, os apagões se prolongaram por mais de 30 horas na capital, enquanto em outras províncias já somam mais de 60 horas consecutivas.
Havana responsabiliza Washington pela situação crítica do sistema elétrico, enquanto os Estados Unidos consideram que esta se deve à má gestão econômica interna.
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