“Os garotos devem vir de cabelo curto. É totalmente proibido pintar o cabelo ou usar maquiagem”, afirmou durante um ato oficial em um colégio de Chaclacayo, a cerca de 30 km de Lima. O veto inclui também unhas pintadas e celulares. “A ordem não deve existir apenas nas ruas. Também precisa retornar às nossas escolas, às nossas salas de aula.”
Keiko anunciou ainda a volta das chamadas “notas de conduta”, que avaliavam questões como a pontualidade e o comportamento dos alunos e haviam sido abolidas em 2019, e das expulsões. “Os mais malcriados não estarão nas salas de aula”, disse a presidente.
Há poucos detalhes por enquanto, uma vez que as regras ainda não foram estabelecidas oficialmente. O Ministério da Educação publicou uma resolução que convida a sociedade peruana a opinar sobre as novas normas em um prazo de 15 dias.
Mas o chefe da pasta, José Antonio Chang, antecipou alguns dos planos no evento em Chaclacayo. “Maquiagem, esmalte e cabelos excessivamente longos ou tingidos não serão permitidos. Também teremos que garantir que as saias escolares tenham um comprimento apropriado”, afirmou o ministro.
As regras valerão para os 6,7 milhões de estudantes dos colégios públicos — 72% do total de alunos da educação básica no Peru. Os 2,6 milhões de crianças e adolescentes que estudam na rede privada, normalmente vindos de famílias com maior poder aquisitivo, seguirão as regras da unidade na qual estão matriculados.
De acordo com o ministro, além das regras anunciadas por Keiko, as escolas peruanas vão restabelecer a possibilidade de expulsão em casos de faltas graves, que vão desde agressões físicas até o uso indevido do celular. Os estudantes permanentemente afastados continuariam seus estudos por meio de uma modalidade híbrida, com ensino virtual e atendimento presencial.
“Sei que pode parecer bastante rigoroso, mas acreditem, isso será importante para toda a vida”, afirmou Keiko no ato. “Todos esses critérios estabelecerão disciplina”, continuou, enfatizando cada sílaba da última palavra.
Como esperado, o plano atraiu críticas assim que foi anunciado. “Agora a educação é medida pelo comprimento do cabelo, pela maquiagem ou pelas unhas pintadas?”, afirmou, por exemplo, a senadora Ruth Luque, de esquerda e opositora de Keiko.
Além de criticar a imposição de regras apenas para escolas públicas, Luque defendeu mais investimento na rede de ensino. “A autoridade docente é indispensável, mas não se constrói confundindo a aparência pessoal com a conduta, nem impondo estereótipos sobre como meninos e meninas devem se apresentar”, afirmou.
A medida lembra a adotada em El Salvador, país que Nayib Bukele governa sob um estado de exceção há quatro anos e meio. Desde agosto do ano passado, diretores de escolas salvadorenhas devem, sob risco de serem punidos por uma “falta grave”, receber diretamente os alunos para conferir se estão com uniforme “limpo e ordenado” e “corte de cabelo apropriado” — moicanos, por exemplo, estão proibidos.
“Para construir o El Salvador com o qual sonhamos, está claro que devemos transformar completamente o nosso sistema educacional”, afirmou o presidente na ocasião, ao compartilhar no X o anúncio de sua ministra da Educação, uma médica e major das Forças Armadas do país.
Keiko tem uma visita a Bukele programada para o final de outubro. O salvadorenho foi citado ao longo da campanha eleitoral como uma inspiração para o combate à criminalidade no Peru, que vive uma explosão no número de extorsões e um aumento da taxa de homicídios.
Assim como outros líderes de direita da América Latina, ela deve sair com uma fotografia no Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), prisão a cerca de 80 km de San Salvador que enfrenta uma série de denúncias de tortura.

