segunda-feira, setembro 21, 2026

Lula usa palco do G7 para criticar retração da solidariedade internacional e protecionismo

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“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, afirmou Lula no discurso proferido na sessão dedicada ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”, em Évian.

Lula defendeu ainda o combate ao crime organizado transnacional, mas com uma condição: “Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados.”

Disse que o narcotráfico “aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas” e que seu enfrentamento “não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas.”

Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano designou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras -decisão anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio e que entrou em vigor em 5 de junho. A medida foi tomada dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir com Trump na Casa Branca e pedir pessoalmente a medida.

O governo Lula rejeitou a classificação, argumentando que os grupos são organizações criminosas com fins lucrativos, não terroristas.

Ao defender em Évian que o combate ao narcotráfico deve respeitar “a soberania dos Estados” e ocorrer por meio de “cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol”, Lula deu outro recado a Trump.

Na quarta-feira (17), Lula deve se deslocar a Genebra para encontro com Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol -o primeiro brasileiro a ocupar o cargo na história da organização- acompanhado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O encontro ocorre num momento em que o Brasil busca fortalecer a cooperação policial internacional como alternativa à pressão americana para aceitar uma intervenção direta no combate às facções brasileiras.

Esta foi a décima participação do presidente brasileiro em cúpulas do G7 ou G8 -a primeira também nesta cidade francesa, em 2003. “Desde aquele ano estive em outras nove cúpulas do G8 ou G7. Em todas elas nos defrontamos com crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras”, disse.

Em seu discurso, Lula fez uma avaliação crítica das últimas décadas de política econômica global. Ele afirmou que os países “ficaram aprisionados em dogmas que defendem a desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos” e que “o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”.
Voltando-se para o cenário atual, disse que “o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.”

Lula citou uma série de dados para ilustrar o que chamou de retrocesso na cooperação internacional. Segundo ele, a ajuda oficial ao desenvolvimento registrou queda histórica de 23% no ano passado; o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento; e a Organização Mundial da Saúde e o Unicef reduziram os orçamentos em mais de 20%.

“Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, disse.

Os dois primeiros números estão corretos. A queda de 23% na ajuda ao desenvolvimento foi confirmada pela OCDE em abril de 2026 -a maior contração anual já registrada-, com os Estados Unidos respondendo por três quartos do declínio. O corte de 40% no Programa Mundial de Alimentos foi confirmado pela própria agência da ONU.

Já o dado sobre OMS e Unicef é parcialmente correto: relatórios internacionais confirmam cortes de até 20% no Unicef e em outras agências humanitárias, mas os números variam por fonte e o impacto sobre a OMS especificamente não está consolidado.

A retórica mirava, sem nomear, os cortes promovidos pelo governo Trump na ajuda externa americana desde o início de seu segundo mandato -uma das mudanças mais abruptas na política externa dos Estados Unidos em décadas.
Lula também defendeu uma redistribuição mais ampla de recursos. “O mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos”, afirmou. E cobrou um sistema financeiro diferente: “Precisamos de um sistema no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças.”

Na área climática, defendeu que o financiamento global seja ampliado para ao menos US$ 1,3 trilhão ao ano, e criticou o ritmo de implementação do Acordo de Paris. “A COP30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los”, disse.

O presidente citou iniciativas brasileiras como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome, e defendeu que países detentores de minerais críticos participem das etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas ligadas à inteligência artificial e à transição energética.

O discurso com recados a Trump e críticas ao unilateralismo e ao protecionismo, mas sem menções diretas ao americano, já era esperado. Já um encontro com o presidente dos EUA está descartado. A avaliação do Planalto é de que não faria sentido promover uma nova reunião apenas para reiterar posições já apresentadas -inclusive sobre o tarifaço imposto sobre produtos brasileiros.

Ainda nesta terça, Lula tinha previsto para às 17h20 locais (12h20 em Brasília) uma reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa -o encontro mais aguardado pelo lado brasileiro em Évian.

A reunião ocorreria em meio à tensão com Bruxelas pela suspensão das importações de carne brasileira pela União Europeia. Na véspera, Costa disse que o bloco mantém um “diálogo construtivo” com o Brasil sobre o tema, mas ressaltou que “as normas sanitárias têm de ser cumpridas” -deixando para Von der Leyen qualquer posição mais concreta após o encontro.

Leia Também: Países que falam melhor inglês (e pior) no mundo: A posição do Brasil

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