quarta-feira, setembro 23, 2026

Petro deixa esquerda consolidada na Colômbia mesmo após patinar em agenda de reformas

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Apesar do fracasso em eleger um sucessor e dos reveses ao tentar emplacar muitas de suas reformas, o líder encerra o mandato com uma esquerda consolidada no país -um feito, considerando o passado colombiano de guerra civil e aliança com os Estados Unidos.

Nos anos 2000, enquanto a América do Sul estava tomada por governos de esquerda da chamada onda rosa, a Colômbia manteve Álvaro Uribe no poder por dois mandatos (2002-2010). Mas, agora que a região está passando pela onda azul (como foi batizada, por sua vez, a ascensão de governos de direita), a Colômbia se junta à tendência com a sua versão do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

A vantagem que Espriella conseguiu no segundo turno, no entanto, mostra a dimensão da polarização no país. Após surpreender analistas e institutos de pesquisa e liderar o primeiro turno por quase três pontos percentuais, o ultradireitista quase perdeu na votação final -mesmo após receber o apoio do presidente americano, Donald Trump.

Foi a eleição mais apertada da história da Colômbia: menos de um ponto percentual separou Espriella de Iván Cepeda, apadrinhado de Petro. Para comparação, Uribe venceu seu opositor por mais de 40 pontos percentuais no primeiro turno de 2006, quando conseguiu ser reconduzido ao cargo. Já Juan Manuel Santos, seu sucessor, ganhou as eleições de 2010 contra o candidato do Partido Verde com mais de 42 pontos percentuais de vantagem.

A polarização se reflete também no Congresso -o que deve ser um desafio adicional para Espriella. Nas eleições legislativas deste ano, celebradas em março, o Pacto Histórico, partido de Petro, foi o que mais cresceu, conseguindo eleger 25 senadores e 42 deputados. São cinco representantes a mais no Senado, equilibrando perdas de outra sigla de esquerda na Casa, e 15 a mais na Câmara.

Em termos percentuais, a bancada representa 23% dos assentos da Câmara dos Representantes e 24% do Senado. Embora não sejam maioria e confrontem uma fragmentada direita, os números são expressivos, especialmente se comparados com os dos anos 2000, quando a porcentagem de todos os partidos de esquerda no Congresso não chegava a 20%.

A maior presença da esquerda já estava clara em 2022, quando Petro chegou ao poder -o que não foi suficiente para a sua ambiciosa agenda de reformas.
Um de seus maiores êxitos foi a redução da pobreza, que terminou em 28% (ante 36,6% em 2022), o nível mais baixo da história da Colômbia. Para além dessa conquista, o presidente conseguiu aprovar uma reforma tributária que aumentou impostos sobre pessoas de alta renda e uma reforma trabalhista que aumentou os pagamentos a trabalhos noturnos e aos domingos e feriados.
Ficaram pelo caminho promessas como a de uma “paz total” com as guerrilhas remanescentes na Colômbia -e a explosão dos sequestros foi uma das consequências da permanência dos grupos no interior do país- e a reforma da saúde, uma das principais preocupações dos colombianos atualmente.

Espriella vai assumir o país com o sistema de saúde em uma crise que se arrasta há anos. Algumas pesquisas eleitorais inclusive colocaram o problema como o principal para os colombianos.

De acordo com um levantamento de maio do Observatório da Democracia da Universidade dos Andes, 26,1% da população vê a saúde como o maior dos problemas do país, mais de seis pontos percentuais em relação à corrupção, o segundo colocado.

Em seus esforços para passar a reforma na saúde e outras iniciativas, Petro tentou até apelar a uma consulta popular, afirmando que o que chamava de “bloqueio institucional” era uma “ditadura contra o voto popular”, mas foi barrado.

Espriella tem propostas ainda mais ousadas do que as de Petro, mas com o sinal trocado. Os planos do novo presidente incluem o retorno da fumigação aérea para erradicar plantações de coca e o fim de qualquer negociação com grupos armados, além da redução do Estado com a revisão de ministérios e de órgãos públicos.

Para isso, o advogado, que estreia em seu primeiro cargo público nesta sexta, precisará lidar com uma sociedade dividida.

Leia Também: Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinam pacto militar

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