domingo, novembro 1, 2026

16% das crianças de até 6 anos já teriam sofrido racismo, segundo percepção de responsáveis, indica Datafolha

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(FOLHAPRESS) – Uma em cada seis crianças com até seis anos de idade (16%) já teria sido vítima de racismo no Brasil, de acordo com a percepção dos responsáveis por elas. Mais da metade dos casos (54%) teria ocorrido na creche ou na pré-escola.

Apesar disso, 22% da população acha que é raro que este público esteja exposto ao problema, e outros 10% afirmam que não há vítimas nessa faixa etária porque a sociedade brasileira praticamente não é racista.

É o que mostram dados de uma pesquisa Datafolha encomendada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, organização que trabalha no segmento da primeira infância no país. A pesquisa ouviu um total 2.206 pessoas em entrevistas presenciais realizadas em abril de 2025, sendo 822 responsáveis por cuidar de crianças de 0 a 6 anos. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para total da amostra e de 3 pontos percentuais para amostra de responsáveis.

O instituto perguntou aos responsáveis “a criança já foi tratada de forma diferente de outras crianças por causa de sua cor da pele, tipo de cabelo e outras características físicas?”.

O levantamento faz parte de um estudo sobre a primeira infância no país, organizado pela fundação, e mostra como o racismo contra bebês e crianças é percebido. Entre os 132 responsáveis que relataram ter testemunhado situações que consideram racismo contra as crianças, o local mais frequente da ocorrência foi o ambiente escolar (54%) Em seguida estão espaços públicos como ruas, praças ou parques, indicado por 42% desse público, seguido pelo bairro ou vizinhança (20%).

Os relatos são mais frequentes entre os responsáveis ​​pretos ou pardos (19%), ante a parcela de brancos (10%).

Já para a pergunta sobre a exposição de crianças na primeira infância ao racismo, a diferença de escolaridade tem impacto significativo. Com nível superior, são 74% os que concordam com a afirmação de que “O racismo é algo comum e mesmo crianças na primeira infância são vítimas de racismo”, proporção que cai para 53% entre aqueles com ensino fundamental.

A discriminação na fase de 0 a 6 anos de idade compromete o desenvolvimento das crianças e poderá ter efeitos no futuro dessas vidas, segundo a CEO da fundação, Mariana Luz.

Isso porque até 90% da formação do cérebro ocorre nesse período, com competências que serão exigidas pelo resto da vida. E um dos elementos básicos para uma boa formação é a proteção, que tem como opostos abusos e violências, como o racismo.

“Então se essa criança, uma criança pequena, sofre racismo na sala de um colega num período no qual ela está formando a sua identidade, constituindo a sua autoestima, que ela precisa das experiências para se desenvolver plenamente, isso vai minar esse processo, isso vai gerar traumas e esse estresse tóxico vai impedir que ela se desenvolva nessa máxima potência.”

Segundo a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, a criança que sofre discriminação passa a viver em alerta, gastando energia que seria direcionada ao desenvolvimento e aprendizado para tentar antecipar e se proteger de ataques.

“Imagine esse gasto de pensar que vão falar do cabelo, do nariz, que não vão querer brincar.”

Entre os impactos também estão a rejeição da própria imagem, a tentativa de apagar a identidade racial e a propensão do desenvolvimento de doenças.

A creche e a pré-escola, assim, não podem ser vistas como alheias aos ambientes escolares dos mais velhos, porque o racismo também ocorre e precisa ser combatido nesses espaços. É o que diz a coordenadora-executiva da Ação Educativa, Edneia Gonçalves.

Toda a comunidade escolar, diz ela, precisa ser chamada a resolver os casos de racismo, com protocolos que precisam estar ou serem inseridos no projeto político-pedagógico de cada unidade. “Esses procedimentos da escola é que vão determinar como você vai acolher a vítima, como vai educar o racista e como vai mobilizar a comunidade escolar e fazer a autoavaliação nessa escola.”

Grande parte do desafio está em como aplicar a lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica e que já completou duas décadas ainda vista como esforço particular de alguns professores. Para Edneia, a questão é promover uma educação de qualidade, com repertório para que as crianças possam aprender e também construir e valorizar suas próprias identidades.

Para Viviana, da Oxfam Brasil, ainda faltam mecanismos de acompanhamento para verificar a aplicação da lei. A especialista destaca que é preciso educar toda a comunidade. “É pensar como é que as famílias continuam educando as crianças brancas para a reprodução do racismo. A gente olha a criança negra, mas eu me preocuparia com a criança branca.”

No vídeo, uma farmacêutica apresenta Noemi Ferrari dizendo que ela estava “escurecendo a loja”. “Essa daqui é a Noemi, nossa nova colaboradora. Fala um ‘oi’, querida. Tá escurecendo a nossa loja? Tá escurecendo. Acabou a cota, tá? Negrinho não entra mais”, diz a mulher aos risos.

Folhapress | 07:52 – 13/09/2025

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