Teerã vem bloqueando a passagem pelo estreito, por onde circulavam cerca de 20% do petróleo e do gás liquefeito consumidos no mundo, desde o início dos ataques dos EUA e de Israel, em 28 de fevereiro.
Baqaei recebeu a reportagem da Folha na sede do ministério, na capital iraniana. Ele confirmou que o Irã continua participando das negociações de paz mediadas pelo Paquistão e afirmou que o país já enviou uma resposta às exigências americanas.
A entrevista ocorreu em meio a um clima de tensão dentro do governo iraniano, diante da expectativa de uma retomada dos ataques dos EUA e de Israel.
Pouco depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que adiaria uma ofensiva militar contra o Irã prevista para esta terça-feira (19), após pedidos de líderes de países do Golfo.
Trump acrescentou, porém, que Washington segue pronto para realizar um “ataque em larga escala, a qualquer momento, caso um acordo aceitável não seja alcançado”.
Questionado sobre o futuro do estreito de Hormuz, Baqaei afirmou que a passagem estava aberta antes do início do conflito.
“Então, toda a comunidade internacional deve entender que os Estados Unidos são os responsáveis pela situação atual no Golfo Pérsico e no estreito de Hormuz”, declarou.
Segundo ele, o Irã, como país costeiro ao lado de Omã, pretende garantir a passagem segura de navios sem comprometer sua soberania e segurança nacional.
“Estamos trabalhando em um protocolo, um mecanismo para garantir a passagem segura das embarcações e, ao mesmo tempo, assegurar que as preocupações relacionadas à segurança do Irã sejam devidamente consideradas”, afirmou.
Após a entrevista, autoridades iranianas anunciaram a criação da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, órgão responsável por administrar o tráfego marítimo em Hormuz.
Baqaei também afirmou que países considerados aliados dos EUA e de Israel poderão enfrentar restrições.
“Os Estados costeiros têm o direito de adotar medidas para impedir a passagem de embarcações de países agressores. Os Estados Unidos, Israel e seus apoiadores, aqueles que foram cúmplices no crime de agressão, não podem ter permissão para atravessar o estreito de Hormuz”, declarou.
Ao mesmo tempo, o porta-voz disse que Teerã mantém contato com diversos países para garantir a passagem segura de embarcações consideradas neutras.
Sobre as negociações mediadas pelo Paquistão, Baqaei afirmou que o Irã exige o desbloqueio de ativos financeiros congelados no exterior, o fim das sanções americanas e o reconhecimento do direito iraniano ao uso pacífico de energia nuclear.
“O que queremos não são exigências, mas direitos”, afirmou.
Questionado sobre a possibilidade de transferir urânio enriquecido para um terceiro país, como defendem os EUA, o diplomata rejeitou a proposta.
“Por que o Irã deveria transferir seus materiais para outro país? Se os Estados Unidos realmente estivessem preocupados com o caráter pacífico do programa nuclear iraniano, não teriam abandonado o acordo nuclear”, disse, referindo-se ao JCPOA, tratado assinado em 2015 e abandonado pelos EUA em 2018, durante o primeiro governo Trump.
Baqaei afirmou ainda que o Irã permanece preparado para uma eventual retomada dos ataques.
“Temos de estar preparados para todos os cenários, porque eles já demonstraram que não conhecem limites quando se trata de violar o direito internacional”, declarou.
Segundo ele, as Forças Armadas iranianas responderiam “com toda a força” em caso de novos ataques.
Ao comentar o papel do Brasil no conflito, o porta-voz afirmou que o país pode exercer influência diplomática importante por integrar o Brics e possuir histórico de atuação em negociações nucleares.
“O Brasil teve uma experiência importante em 2010, ao lado da Turquia, tentando ajudar na questão nuclear iraniana”, afirmou.
Sobre a China, Baqaei destacou a relação econômica entre os dois países e elogiou a atuação diplomática de Pequim na região.
“A China desempenhou um papel muito importante ao tentar construir confiança no Oriente Médio. É isso que diferencia a China dos Estados Unidos”, disse.
O porta-voz também comentou os impactos econômicos da guerra no Irã, incluindo inflação elevada e desvalorização da moeda.
“Os iranianos aprenderam a resistir e a se tornar resilientes diante dessas ameaças e sanções”, afirmou.
Segundo ele, o governo iraniano criou mecanismos para apoiar grupos vulneráveis e reduzir os impactos econômicos sobre a população.
Baqaei ainda responsabilizou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pela escalada do conflito.
“A opinião pública americana começa a perceber que o país foi arrastado para esta guerra por Netanyahu e pelos setores mais belicistas de Israel”, declarou.
RAIO-X | Esmaeil Baqaei
Formado em Direito, Baqaei é porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã desde 2024. Nascido em 1975, na cidade de Yazd, iniciou a carreira diplomática em 2001 e foi embaixador da República Islâmica do Irã na ONU entre 2018 e 2022.

