Ofensas raciais feitas em tom de piada ou tratadas como uma ‘simples brincadeira’ podem configurar injúria racial e gerar responsabilização criminal. O alerta é do advogado especialista em Direito Antidiscriminatório Marciano Xavier, de Mato Grosso, que ocupa o terceiro lugar no ranking nacional em taxa de registros desse tipo de crime, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Segundo o especialista, alegar que não havia intenção de ofender e que determinada expressão foi usada apenas como brincadeira não é suficiente para afastar a possibilidade de crime.
“É bastante comum depois alegar: ‘Ah, não, mas foi uma brincadeira’. A jurisprudência vem no sentido de que alegações como ‘foi uma brincadeira’ não excluem o crime”, explica Marciano.
As situações podem ocorrer em diferentes ambientes do cotidiano, como escolas, locais de trabalho, condomínios e estabelecimentos comerciais. Além de denunciar, o advogado orienta que a vítima tenha cuidado para preservar desde o início tudo o que possa servir como prova.
Prints, vídeos e mensagens podem servir como provas
Conversas, mensagens, prints, fotografias e vídeos devem ser preservados. A orientação muda também de acordo com o ambiente em que a situação ocorreu.
No trabalho, por exemplo, Marciano recomenda que a comunicação ao setor de Recursos Humanos, gestor ou responsável seja feita por escrito. Em condomínios, a vítima pode notificar formalmente o síndico e solicitar o registro do episódio em ata.
Nos estabelecimentos comerciais, além do registro de boletim de ocorrência, o especialista aponta a possibilidade de procurar órgãos de defesa do consumidor, como o Procon.
Segundo Marciano, esses procedimentos são importantes tanto para comunicar o episódio às autoridades quanto para preservar elementos que poderão contribuir para a apuração.
As maiores taxas do Brasil em 2025
Número de boletins de ocorrência para cada 100 mil habitantes nas unidades da Federação com os maiores índices.
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Distrito Federal 28,9
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Santa Catarina 27,1
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Mato Grosso 20,6
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Paraná 19,3
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São Paulo 17,1
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Piauí 12,4
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Sergipe 12,0
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Amapá 10,2
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Minas Gerais 9,8
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Acre 9,5
Taxa por 100 mil habitantes
Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.
Gráfico elaborado pelo Primeira Página
Medo de retaliação pode levar vítimas ao silêncio
As consequências, porém, não ficam restritas à esfera criminal. O psicólogo Wallace Rodolfo explica que episódios de racismo podem provocar impactos emocionais e que o medo de não ser acreditado ou de sofrer retaliações pode fazer com que vítimas deixem de relatar o que aconteceu.
“A maioria das vezes a vítima do racismo se silencia porque ela tem medo. Tem medo de não ser, no sentido prático da palavra, endossada. Então, o que ela falou vai ficar por aquilo mesmo”, afirma.
O receio pode ser ainda maior quando a vítima acredita que denunciar poderá trazer consequências para sua rotina ou para as relações no ambiente em que vive ou trabalha.
Para o psicólogo, acolher quem relata uma experiência de racismo passa, primeiro, por permitir que a pessoa fale sobre o que viveu e sobre os impactos provocados pela situação.
“A única forma de conseguir ajudar alguém que passou por uma experiência de racismo é deixar ela falar à vontade, deixar ela pontuar o que sente, o que vivenciou”, explica.
Segundo Wallace, experiências de racismo podem deixar marcas duradouras. Por isso, comentários relacionados à aparência, à cor ou à história de outra pessoa não devem ser minimizados simplesmente por terem sido apresentados como piada ou brincadeira.

