Mato Grosso registrou seis casos de violência sexual contra indígenas em 2025, segundo o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O estado teve o segundo maior número de registros entre os estados citados, atrás apenas de Mato Grosso do Sul, que contabilizou sete ocorrências.
Em todo o país, o levantamento reuniu 25 casos de violência sexual contra crianças, adolescentes e adultos indígenas. Desse total nacional, 20 foram classificados como estupro de vulnerável e tiveram como vítimas crianças menores de 14 anos. O próprio relatório ressalta que os registros representam apenas uma amostra da realidade da violência sexual sofrida pela população indígena.
Além de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, houve registros no Amazonas, com cinco casos; Paraná, com dois; e Acre, Bahia, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com uma ocorrência em cada estado.
Bebês, crianças e adolescentes estão entre vítimas em MT
Os seis episódios registrados em Mato Grosso envolvem principalmente crianças e adolescentes. Dois casos citados pelo relatório envolvem bebês Xavante que morreram após apresentarem indícios de possível violência sexual durante atendimento médico.
Em Barra do Garças, um bebê Xavante de 10 meses morreu em março do ano passado, após ser internado com dificuldades respiratórias e febre. Segundo o relatório, profissionais de saúde identificaram indícios de possível abuso sexual e a Polícia Civil passou a investigar o caso. O documento ressalta que a morte estava relacionada às dificuldades respiratórias e à febre apresentadas pela criança.
Outro bebê Xavante, de 1 ano e 2 meses, da Terra Indígena Isoú’pá, também morreu após ser atendido com febre, desnutrição, diarreia e sinais de possível violência sexual. A equipe médica acionou a Polícia Militar e o Conselho Tutelar, e os pais foram encaminhados à Polícia Civil para prestar depoimento.
Em Rondonópolis, uma criança indígena de 8 anos, da Aldeia Tadarimana, foi levada a uma unidade hospitalar em dezembro com lesões que, segundo o relatório, eram compatíveis com abuso sexual. O hospital comunicou as autoridades, e um suspeito foi encaminhado à delegacia para o início das investigações.
Adolescentes também aparecem entre os registros
Na Aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto/Jarina, em São José do Xingu, uma adolescente Kayapó de 14 anos foi vítima de estupro coletivo, conforme o levantamento. Segundo o relato reunido pelo Cimi, a jovem teria sido embriagada por quatro homens e violentada enquanto estava inconsciente. A denúncia foi encaminhada à Polícia Civil, que passou a investigar o caso.
Outro registro envolve uma adolescente de 14 anos da Terra Indígena Tapirapé/Karajá. De acordo com o relatório, um homem de 53 anos era suspeito de manter a jovem em cárcere privado e submetê-la a violência sexual e psicológica. A adolescente foi localizada durante buscas realizadas com participação da Polícia Militar, Funai e Conselho Tutelar.
Em Santo Antônio do Leverger, uma adolescente indígena de 16 anos teria sido embriagada e explorada sexualmente por pessoas acampadas em um loteamento próximo à Terra Indígena Tereza Cristina. Conforme o documento, a jovem foi abandonada em uma estrada após a violência. O relatório relaciona a proximidade de grupos externos, sem fiscalização adequada, à exposição de jovens indígenas a situações de violência e exploração.

Violência sexual aparece ligada a outros contextos de vulnerabilidade
No levantamento nacional, o Cimi também chama atenção para diferentes contextos em que os abusos ocorreram. Há registros envolvendo familiares, pessoas próximas às comunidades e profissionais que ocupavam posições de confiança.
Três casos registrados no país envolveram professores acusados de violência sexual contra crianças e adolescentes indígenas, em episódios ocorridos em Mato Grosso do Sul, Amazonas e Santa Catarina.
Em Mato Grosso, o relatório também relaciona outras situações de vulnerabilidade à presença do garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, do povo Nambikwara. Segundo o documento, a intensificação da atividade ilegal e a chegada do tráfico de drogas têm provocado desestruturação social nas comunidades e ampliado a exposição principalmente de jovens e adolescentes à violência sexual e à dependência química.
Os casos de violência sexual integram o capítulo de violência contra a pessoa do relatório. Ao todo, o Cimi contabilizou 474 registros nessa categoria em 2025, incluindo assassinatos, tentativas de assassinato, lesões corporais, ameaças, racismo e discriminação, além das 25 ocorrências de violência sexual.

