A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial e as movimentações de lideranças da direita no período pós-eleitoral abriram uma discussão sobre os rumos do campo conservador para os próximos anos. Com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em prisão domiciliar, o senador nos Estados Unidos, ao lado de Eduardo Bolsonaro, e nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL) em busca de espaço, a direita enfrenta o desafio de reorganizar sua liderança sem necessariamente romper com o eleitorado bolsonarista.
O doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Josimar Gonçalves, avalia que o bolsonarismo “dificilmente” será isolado em termos de representação parlamentar. O PL elegeu 121 deputados federais, 23 a mais que em 2022, e chegou a 28 senadores. De acordo com o cientista, a questão está nos espaços de poder que o partido conseguirá ocupar.
“Em votos, dificilmente. Em poder de agenda, é possível. Um partido desse tamanho não é isolável no sentido numérico. O que se pode isolar é a capacidade de ocupar a Mesa [Diretora], as comissões, os ministérios e a execução de emendas”, afirma Gonçalves em conversa com a reportagem do O HOJE.
O cientista aponta que a agenda de confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) e a defesa da anistia podem dificultar a aproximação com partidos interessados em negociar com o governo federal. “O risco de isolamento está menos nas urnas do Congresso e mais em uma agenda, de anistia ou confronto com o STF, cujo custo o Centrão não tem incentivo para dividir.”
Já o professor da PUC-GO e cientista político Pedro Pietrafesa pondera que a aproximação de partidos com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não significa que todos os parlamentares do Centrão seguirão na mesma direção.
“O governo Lula vai negociar com esses partidos do Centrão, mas não acredito que vai ter a porteira fechada com todos os parlamentares apoiando o governo Lula. Principalmente no Senado”, afirma. “Se a gente for olhar os políticos eleitos pelo Centrão em muitos Estados, são políticos muito próximos ao bolsonarismo. Só que por algum motivo de espaço político na questão regional não estão no PL”, ressalta ao O HOJE.
Comando da direita
A disputa pelo comando da direita já aparece nas movimentações de diferentes lideranças. Josimar avalia que o cenário aponta para uma disputa interna por hegemonia sem ruptura com o bolsonarismo. “O bolsonarismo continua dono de ativos reais: a máquina do PL, a maior bancada e um eleitorado que deu 48,21% dos votos a Flávio no segundo turno depois de ele ter terminado o primeiro turno à frente. O que falta é liderança”, afirma.
Pietrafesa ressalta que o afastamento não será simples. “Há políticos e partidos de direita, mais liberais, mais democráticos, que querem esse afastamento do bolsonarismo. Mas, novamente, precisa ver de quais políticos e de quais perfis nós estamos falando. Muitas dessas lideranças de direita, do Republicanos, do PP, do União Brasil, são muito próximas da família Bolsonaro”, diz. “Da forma como alguns políticos foram eleitos, com um vínculo muito forte com o bolsonarismo, eu não sei quão simples será esse rearranjo”, frisa.
Representante dos Bolsonaro
Apesar da eleição presidencial de 2030 já aparecer nas discussões, os especialistas consideram “prematuro” definir um representante da direita. “A questão é menos o sobrenome e mais a bênção de Jair Bolsonaro. O sobrenome é ao mesmo tempo ativo, com a transferência de voto, e passivo, com a rejeição, os problemas jurídicos e a imagem de exílio nos EUA. “Para a direita, o dilema é como converter a base fiel em maioria sem carregar esse passivo”, analisa Josimar.
Gonçalves considera Tarcísio como o candidato mais “natural” da direita, em razão da reeleição em primeiro turno ao Governo de São Paulo, com 62,65% dos votos, e da capacidade de diálogo com o Centrão e o mercado financeiro. Porém, o cientista ressalta que o governador terá de administrar a relação com a família Bolsonaro e com partidos que possuem projetos próprios para 2030.
Já Pietrafesa destaca que Michelle Bolsonaro pode buscar uma candidatura própria ou integrar uma chapa nacional, enquanto o próprio Tarcísio ainda poderá optar por disputar outro cargo. “Mas há, sim, movimentações de políticos para que em 2030 o candidato não seja necessariamente da família Bolsonaro”, observa.

