domingo, abril 26, 2026

Como o Grammy pode virar um palco de protesto político com Bad Bunny e Billie Eilish

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GUILHERME LUIS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O próximo Grammy, exibido na noite deste domingo (1º), terá de escolher entre coroar a música de fora dos Estados Unidos, encarnada na figura do porto-riquenho Bad Bunny, indicado a seis categorias, ou se vai se acovardar para laurear os mesmos americanos de sempre, caso de Lady Gaga, não menos merecedora, nomeada a sete estatuetas. É briga de gente grande, e, de certa forma, um embate político também.

Isso porque Bad Bunny faz uma ode a Porto Rico -um território dos Estados Unidos- e aos latinos no disco “Debí Tirar Más Fotos” e, a partir dele, vem travando uma guerra fria com Donald Trump nos últimos meses. Artista mais ouvido do mundo no Spotify, ele se recusou a levar sua turnê para as terras ianques por medo de que fãs sofressem repressão do ICE, o serviço americano que está prendendo pessoas imigrantes de forma violenta. Isso despertou protestos em toda a ala artística, inclusive entre atores que foram ao Globo de Ouro no mês passado.

O Grammy já fez então, de certa forma, seu próprio atestado contra a política anti-imigração de Trump ao incluir Bad Bunny entre os indicados das suas três principais categorias -disco, canção e gravação do ano, estas duas com a faixa “DtMF”-, um feito inédito para um projeto cantado em espanhol.

Dar a ele uma dessas estatuetas, especialmente a de álbum do ano, como apostam os especialistas, reforçaria essa oposição entre a maior premiação da música e o governo de Donald Trump.

Abriria espaço também para que o porto-riquenho faça discursos contra o presidente, como Billie Eilish, também indicada nesta 68ª edição do Grammy, fez há duas semanas na premiação MLK Jr. Beloved Community Awards, para pessoas e organizações que se dedicam a uma sociedade mais justa. Ao receber um troféu por justiça ambiental, Eilish afirmou que, diante de tantas mortes de manifestantes, proteger o meio ambiente parece estar cada vez mais longe das prioridades do governo.

É possível, então, que ela faça um protesto parecido no Grammy se vencer uma das duas estatuetas que concorre com a música “Wildflower”, em gravação e canção do ano, esta entregue aos compositores -neste caso, a própria Eilish e seu irmão, Finneas O’Connell.

Ídolos de muitos jovens -Eilish tem 24 anos-, os dois estão entre os artistas que mais se manifestam publicamente sobre política. Na última terça-feira, ela usou seu perfil no Instagram, com 125 milhões de seguidores, para ironizar celebridades que estão caladas diante dos episódios envolvendo o ICE.

No dia seguinte, a rapper Nicki Minaj deu as mãos a Trump em um evento em Washington, onde pegou o microfone não para cantar, mas para dizer que se considera a fã número um do presidente -e que não se importa com as críticas que ouve por sua posição política.

Quem também pode aproveitar os holofotes do Grammy para falar mal do governo é Lady Gaga, que -embora simbolize um tipo de música americana exaustivamente reconhecida no Grammy- é também uma antiga opositora de Trump. Na quinta-feira, ela interrompeu seu show em Tóquio para dizer que voltaria para os Estados Unidos com dor no coração por causa do estado em que se encontra o país, com pessoas sendo perseguidas e mortas.

Outro artista que constantemente cruza música e política é o rapper Kendrick Lamar, o recordista de indicações no Grammy deste ano, nove ao todo. O americano não costuma dar nomes aos bois, como Gaga e Eilish, mas deixa uma série de mensagens de cunho social explícitas em suas letras. No Super Bowl do ano passado, onde fez um show visto pessoalmente pelo presidente, o rapper ergueu bandeiras da Palestina -à época, a tensão entre EUA e Oriente Médio só crescia.

Lamar, que saiu vitorioso do Grammy do ano passado com os troféus de gravação e canção do ano, encabeça a lista de indicados desta vez com o álbum “GNX”, que pôs em um novo patamar sua carreira já há muito consolidada. No projeto, ele retoma sua antiga linguagem mais bruta, e menos conceitual, para falar, por exemplo, da briga com Drake, outro gigante do rap, que levou a trocas de ataques por meio de músicas. O disco foi muito bem recebido pela crítica e tem boas chances de sair campeão na categoria principal.

A própria Lady Gaga é uma das artistas à frente da corrida por disco do ano. Com “Mayhem”, ela também voltou ao início de carreira, seu auge, unindo batidas dançantes a temas sombrios -numa embalagem mais sofisticada que nunca. Correm por fora, ainda em álbum do ano, Justin Bieber com “Swag”, que não empolgou nem fãs nem a crítica, Sabrina Carpenter, um tanto repetitiva com seu “Man’s Best Friend”, e Leon Thomas, que surpreendeu com o “Mutt”, mas não deve ter força o suficiente para vencer a categoria.

A música “Abracadabra”, carro-chefe do álbum de Gaga, é certamente o feitiço mais forte dela nesta edição, favorita à estatueta de gravação do ano. Sua grande rival é a faixa “Apt.”, parceria da cantora de k-pop Rosé com o americano Bruno Mars, um dos queridinhos do Grammy. Se vencer, Rosé, que ficou famosa no grupo Blackpink, se tornaria a primeira artista de k-pop laureada numa categoria de peso -embora com uma música cantada em inglês.

A disputa tem ainda Sabrina Carpenter, que tomou o TikTok com a canção “Manchild”; a rapper Doechii, que tem alguma chance de levar com “Anxiety”; e a união de Kendrick Lamar e SZA em “Luther”, que fez bonito nas paradas americanas. O páreo é duro.

Difícil é prever também quem vai vencer a estatueta de artista revelação, uma das mais cobiçadas. Se na época do anúncio dos indicados, em novembro, a britânica Lola Young despontava como favorita, tudo mudou com a explosão da também britânica Olivia Dean, que desde o fim do ano assaltou as rádios, as paradas e as redes sociais com três sucessos de uma vez só. Dean, muito romântica, vem sendo comparada a Adele, o que já é credencial o suficiente para vencer um gramofone.

Young, que faz um pop rock bem geração Z, viveu um período de baixa no segundo semestre de 2025 após desmaiar em um show, e decidir cancelar toda a sua agenda para cuidar da saúde. Ela inclusive desistiu de vir ao próximo Lollapalooza de São Paulo, em março, mas recentemente avisou aos fãs nas redes sociais que logo estará de volta.

Em categorias menores, são possíveis as vitórias do rock alternativo de Hayley Williams, que lançou disco fora do Paramore, de Miley Cyrus, elogiada pelo álbum “Something Beautiful”, e de Chappell Roan, que levou o troféu de artista revelação no ano passado, e agora tenta em performance de pop solo.

Dois brasileiros estão na disputa, os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, que concorrem juntos em melhor álbum de música pop global com a gravação da sua mais recente turnê. Entre os rivais estão o nigeriano Burna Boy e o senegalês Youssou N’Dour.

68º GRAMMY
Quando Neste domingo, às 22h
Onde ver No canal TNT e na plataforma de streaming HBO Max

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