terça-feira, abril 28, 2026

Consumo de Cannabis entre meninas triplica em 10 anos e chega a 7,9%, diz Unifesp

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma pesquisa divulgada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostra que o consumo de Cannabis aumentou na última década no país. O crescimento é especialmente expressivo entre meninas de 14 a 17 anos: o consumo entre elas triplicou.

O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad 3) investigou o uso de substâncias psicoativas, com foco na Cannabis, que domina o mercado. A coleta foi realizada em 2023 com 16.608 participantes de 300 municípios, em seus domicílios, por meio de autopreenchimento sigiloso. Os dados foram comparados ao levantamento de 2012.

Neste ano, 6,3% da população acima de 14 anos havia consumido Cannabis ao menos uma vez. Em 2023, o índice subiu para 15,8%, o equivalente a 28 milhões de pessoas. Entre adolescentes, pela primeira vez, houve uma inversão entre gêneros: o consumo caiu entre meninos (de 7,3% em 2012 para 4,6% em 2023) e aumentou entre meninas (de 2,1% em 2012 para 7,9% em 2023).

A inversão é inédita na série histórica e não se repete com outras drogas, afirma Clarice Madruga, professora de psiquiatria da Unifesp e coordenadora do levantamento. Segundo ela, não há uma explicação definitiva, mas é possível que o fenômeno esteja ligado a mudanças nos hábitos de lazer dos meninos.

“O consumo de vape e a participação em jogos de aposta aumentaram significativamente entre eles. É possível que estejam migrando para práticas mais associadas ao perfil dessa geração”, diz a psicóloga.

Marta Machado, secretária Nacional de Políticas sobre Drogas, levanta a hipótese de haver uma redução da percepção de risco e uma mudança na atitude social em relação à Cannabis. “O fenômeno é observado globalmente e apontado em estudos e nos relatórios recentes do World Drug Report (Levantamento Global sobre Drogas)”, diz.

Outro fator relevante são as mudanças no perfil de saúde mental de adolescentes, especialmente entre meninas, com aumento de sintomas de ansiedade e depressão, intensificados no período da pandemia de Covid-19, acrescenta Machado. Somamos a isso a maior exposição digital e à influência da internet, diz a secretária.

O THC, principal composto psicoativo da Cannabis, tem impacto maior no cérebro em desenvolvimento e aumenta o risco de problemas de saúde mental. Em adolescentes, a Cannabis pode ter efeito estimulante, desencadeando ansiedade, ataques de pânico, quadros psicóticos induzidos por drogas e esquizofrenia.

“O cérebro ainda está em crescimento, e a substância pode alterar sua formação, criando predisposições que antes não existiam”, afirma a pesquisadora.

Cerca de 90% dos usuários de Cannabis no Brasil ainda consomem a substância em formatos fumados tradicionais, com o prensado permanecendo como a forma mais comum. Produtos alternativos começam a ganhar espaço, mas seguem minoritários: aproximadamente 10% dos usuários recorrem a comestíveis e cerca de 4% utilizam vaporizadores.

Cerca de 2 milhões de brasileiros preencheram os critérios para dependência de Cannabis, o equivalente a 1,2% da população de 2023 -proporção que se manteve estável em relação a 2012. Com o aumento do número absoluto de usuários, o estudo aponta uma diluição do risco: embora a taxa de dependência não tenha crescido, há mais pessoas vulneráveis ao transtorno.

A pesquisa destaca a emergência de canabinoides sintéticos (“drogas K”), referido por 5,4% dos usuários (11,6% entre usuários adolescentes). “A diversificação ilustra a crescente complexidade do mercado de drogas, com riscos adicionais relacionados à potência”, diz a pesquisa.

O consumo de outras drogas ilícitas também subiu. A experimentação de substâncias sintéticas e psicodélicas aumentou na última década: o uso de ecstasy passou de 0,76% para 2,20%; o de alucinógenos, de 1,0% para 2,1%; e o de estimulantes sintéticos (ATS), de 2,7% para 4,6%.

O intervalo de dez anos entre uma edição e outra impõe limitações ao estudo e à análise das políticas de combate e redução de danos, diz Madruga. Ela defende maior regularidade em levantamentos epidemiológicos, acompanhados de estudos toxicológicos.

Apesar disso, os achados reforçam a necessidade de políticas de prevenção voltadas aos jovens, especialmente às meninas. A psiquiatra afirma que essas ações devem considerar a cultura local e ser implementadas principalmente no ensino fundamental 2 (6º ao 9º ano), fase crucial para retardar ou evitar a experimentação.

Um ponto central é adiar o início do consumo de álcool: começar a beber cedo aumenta a vulnerabilidade a outras drogas, não como porta de entrada, mas por elevar riscos ligados à impulsividade e à dificuldade de recusar ofertas.

Madruga ressalta que políticas sem comprovação científica podem ser ineficazes e até ampliar o consumo. Ela cita o programa #Tamojunto, da Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas), voltado a estudantes do 8º ano, com aulas, oficinas para pais e atividades focadas no desenvolvimento de habilidades sociais para resistir à pressão do uso.

Gasto em 2025 será limitado à meta de déficit de R$ 5,8 bi

Agência Brasil | 07:05 – 19/12/2025

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