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Dos 20 presos por feminicídio em MS este ano, só um ganhou o direito de responder em liberdade

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Mato Grosso do Sul teve, do início de 2026 até agora, 23 mulheres vítimas de feminicídio. Segundo a polícia, 24 pessoas são investigadas pelos crimes, já que um dos casos tem dois autores apontados. Desse total, três tiraram a própria vida após os assassinatos, um está foragido, enquanto outros 20 suspeitos foram presos pela polícia. Porém, a Justiça deu apenas para um a autorização para responder pelo crime em liberdade: o médico cardiologista João Jazbik Neto, que deixou o presídio em Campo Grande na quinta-feira (20). 

Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de maio de 2026, na casa onde morava com o médico no bairro Chácara dos Poderes, em Campo Grande. Inicialmente, o marido alegou que a esposa teria tirado a própria vida, mas laudos periciais apontaram que o tiro que matou a fisioterapeuta foi disparado a longa distância. Por isso, o idoso acabou preso no dia 14 agosto.

O mandado de prisão de Jazbik Neto foi expedido pelo juiz Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri. Porém, seis dias depois, uma decisão do desembargador da 1ª Câmara Criminal, Emerson Cafure, mudou os rumos do processo. Agora, o médico responde ao crime em liberdade e não precisa utilizar tornozeleira eletrônica. 

“Vale destacar que permanecem presentes as condições pessoais anteriormente valoradas por esta Corte, notadamente a idade avançada do paciente, atualmente com 78 anos, sua primariedade, residência fixa e vínculo com o distrito da culpa, além do quadro clínico cardíaco relevante documentado nos autos. Diante desse cenário, mostra-se adequado e suficiente, neste momento, o deferimento do pedido liminar, sem prejuízo de nova apreciação pelo Juízo de origem caso sobrevenha efetivo fato novo, contemporâneo e concretamente demonstrativo da insuficiência das medidas cautelares”, pontuou a decisão do desembargador. 

Por meio de nota, a defesa do acusado ressaltou que o cliente é inocente, que diversos argumentos foram apresentados no pedido de habeas corpus. Também foi reforçado o argumento de ideia suicida da vítima, e que os laudos serão contestados em juízo.

Médico cardiologista João Jazbik Neto, na residência onde o caso ocorreu (Foto: William Guedes)

“Apresentamos diversos argumentos. Ele é inocente. A vítima se despediu em carta registrada num diário em que havia outras mensagens dela expressando ideação suicida. Os laudos serão contestados em juízo pela defesa. Além de tudo, ele colaborou com as investigações e estava cumprindo rigorosamente as cautelares fixadas em Habeas Corpus anteriormente concedido pelo Tribunal”.

advogado José Belga Trad

Já a defesa da família da fisioterapeuta Fabíola Marcotti é contrária à decisão. À reportagem, o advogado Márcio Leonardo Almeida das Virgens afirmou que a “tese tupiniquim de suicídio é digna de um episódio do Papa-Léguas: na animação, funciona; mas, quando confrontada com as leis da física, desmorona como um castelo de cartas. Afinal, como pode haver autoextermínio mediante um disparo realizado a longa distância?”, disse. 

“A defesa pode apresentar cartas, gravações, documentos e sustentar a versão que entender adequada. É seu direito. Mas qualquer versão terá que enfrentar a prova técnica. Uma anotação pode revelar determinado estado emocional. Uma anotação não altera as leis da física. Não modifica a trajetória de projétil. Não altera lesões. Não apaga vestígios materiais. Não muda o cenário encontrado pela perícia. E não substitui medicina legal, criminalística ou balística. Foi justamente porque a versão inicialmente apresentada foi confrontada com os vestígios que a investigação mudou de rumo. Se bastasse comunicar uma morte como suicídio para transformá-la em suicídio, não haveria necessidade de Polícia Científica, perícia criminal ou investigação. A família não busca vingança. Não pede condenação antecipada. Não pretende substituir o Ministério Público ou o Poder Judiciário. Mas não aceitará que respeito às instituições seja confundido com silêncio diante daquilo que considera injusto. É possível respeitar uma decisão e discordar profundamente dela. É possível acreditar na Justiça e, ao mesmo tempo, exigir que ela explique à sociedade decisões que produzem legítima perplexidade. E é possível defender integralmente os direitos de um investigado sem esquecer que a vítima também tinha direitos”. 

advogado Márcio Leonardo Almeida das Virgens

Fabíola Marcotti era fisioterapeuta e tinha 51 anos. (Foto: Redes Sociais)

Abaixo, o Primeira Página reúne o nome de todos os apontados e investigados pelo crime de feminicídio em 2026, em Mato Grosso do Sul. Os dados foram obtidos com apoio da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen).

João Fernando Viegas

Autor do primeiro feminicídio do ano no estado, João Fernando Viegas, de 51 anos, matou Josefa dos Santos, de 44, a tiros, no dia 16 de janeiro. Após o crime, o suspeito tirou a própria vida. Ele e a esposa foram encontrados mortos dentro da casa em que moravam, em Bela Vista. 

Antônio Lima Ohara

Casado há 40 anos com Rosana Cândia Ohara, Antônio Lima Ohara, de 73 anos, esfaqueou a vítima até a morte no dia 24 de janeiro. Enquanto cometia o crime, testemunhas afirmaram que o autor sorria, no mesmo momento em que via a vítima agonizar. O crime ocorreu na cidade de Corumbá.

Márcio Pereira da Silva

Responsável pela morte de Nilza de Almeida Lima, de 50 anos, Márcio Pereira da Silva discutiu com a esposa na madrugada do dia 22 de fevereiro. Por volta das 3h, câmeras captaram áudio do filho do casal, que dizia que o pai havia “acertado” a mãe. A vítima foi morta com golpes de faca, na casa da família em Coxim. 

Wellington Patrezi Batista Pereira 

Com apenas 20 anos, Wellington Patrezi Batista Pereira matou asfixiada a namorada, Beatriz Benevides da Silva, de 18, dias depois de começar a morar com a jovem. O caso ocorreu no apartamento do casal em Três Lagoas, no dia 25 de fevereiro. 

Elianderson Duarte 

Subtenente do Corpo de Bombeiros, Elianderson Duarte matou a esposa Liliane de Souza Bonfim Duarte, de 51 anos, a marteladas no dia 3 de março. O crime aconteceu na frente dos três filhos, de 11, 15 e 17 anos, na casa da família em Ponta Porã. O militar chegou a ser preso no dia dos fatos, fugiu do presídio onde estava detido em Campo Grande e ficou foragido por 14 dias, quando foi localizado no dia 26 de junho, na capital. 

Edson Campos Delgado 

Edson matou a esposa, Leise Aparecida Cruz, de 31 anos, no dia 6 de março. O corpo da vítima só foi encontrado em uma casa dois dias depois. O caso ocorreu em Anastácio, sendo o 6º crime de feminicídio em MS. 

Juarez Fernandes

Juarez Fernandes, 52 anos, matou a ex-esposa, Ereni Benites, de 44, no Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. A vítima foi encontrada em uma casa em chamas localizada em uma aldeia indígena de Paranhos. 

Maurício Mateus da Silva

Maurício Mateus da Silva, de 21 anos, matou a própria tia, Fátima Aparecida da Silva, de 58 anos, no dia 23 de março, na cidade de Selvíria. Ele foi encontrado se lavando em um rio, próximo da casa onde matou a vítima. 

Gilberto Jarson 

Responsável pela morte da subtenente da Polícia Militar Marlene Brito Rodrigues, de 59 anos, Gilberto Jarson, de 50, matou a companheira com um tiro. Antes de ser preso, afirmou à polícia que a vítima tinha cometido suicídio. Porém, confessou o crime momentos depois. O caso ocorreu em Campo Grande no dia 6 de abril. 

Valdecir Caetano dos Santos

Ex-marido de Vera Lúcia da Silva, de 41 anos, Valdecir Caetano dos Santos, de 56, entrou na casa da vítima e atirou contra ela. Após matar a ex-mulher, o autor tirou a própria vida. O crime aconteceu na cidade de Eldorado, no dia 12 de abril.

Vicente Asúncion Vidal Gonzalez

Após espancar e matar a esposa, Zelita Rodrigues de Souza, de 77 anos, Vicente Asúncion ficou com o corpo da vítima por quatro dias dentro da casa do casal, antes do crime ser descoberto. O caso aconteceu em Mundo Novo, no dia 30 de abril. 

João Jazbik Neto 

Caso que chama atenção em Mato Grosso do Sul, João Jazbik Neto, de 78 anos, foi preso duas vezes após a morte da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos. No dia 18 de maio, a vítima foi encontrada morta com um tiro no rosto, na casa do casal. O médico afirmou que a mulher teria tirado a própria vida. Porém, por possuir arma de fogo de forma irregular, acabou detido. Dias depois foi solto, enquanto a polícia investigava o caso. 

Porém, no dia 14 de agosto, a Justiça decretou a prisão de João, após a perícia constatar que Fabíola foi atingida por um tiro a longa distância, o que quebrava a tese de suicídio. Seis dias depois, Jazbik deixou a cadeia e se tornou o único investigado por feminicídio em 2026, em MS, a receber liberdade da Justiça. 

Pedro Lopes Menezes

Vizinho de Maria do Carmo de Souza, de 66 anos, Pedro Lopes Menezes, de 63, decidiu matar a vítima durante a madrugada do dia 28 de junho, com golpes de facão. O crime ocorreu na zona rural de Naviraí. 

Vagner dos Santos Ferreira

Durante uma discussão com a namorada, identificada como Paula de Souza Conceição, de 29 anos, Vagner dos Santos Ferreira, também de 29, deu um golpe de faca na vítima. Ele alegou que queria apenas “assustar” a jovem. O caso ocorreu no dia 11 de julho, em Fátima do Sul. 

Antônio Marcos da Silva 

Movido por ciúmes, Antônio Marcos da Silva matou a esposa com dois tiros na cabeça dentro de um bar em Nioaque. Logo após, esfaqueou até a morte o vizinho Reginaldo Messias Bispo, de 58 anos, que também estava no local. Ele fugiu após cometer o crime no dia 17 de julho, mas se entregou à polícia três dias depois. 

Joel Escócia Carvalho

Casado com Terezinha Nantes de Arruda, de 54 anos, Joel Escócia, de 59, matou a mulher a facadas no dia 27 de julho, em Campo Grande. Após o crime, decidiu tirar a própria vida. O casal foi encontrado pelo filho dentro da casa onde moravam. 

Daniel Paz dos Santos

Inconformado com o fim do relacionamento com Ana Cordeiro Goes, de 45 anos, Daniel Paz dos Santos desferiu 10 golpes de faca contra a vítima. O caso ocorreu no dia 30 de julho, em Água Clara. 

Douglas Richard Ribeiro 

Em menos de 24h da morte de Ana, Daniel Richard Ribeiro matou a facadas a ex-companheira, Adrielle Encarnação Rodrigues, de 26 anos, durante um encontro. O crime aconteceu no dia 31 de julho em Corumbá. 

Odete Benites e Renê de Souza

Única mulher presente na lista, Odete Benites, de 50 anos, arquitetou a morte de Rose Batista Cabreira, de 41. O comparsa dela, Renê de Souza, e atual marido da vítima, ajudou na realização do crime, que aconteceu no dia 2 de agosto, em uma Aldeia de Dourados. Ele é o único suspeito de MS foragido pelo crime de feminicídio, em 2026, até o momento.

Denilson Ramires Medina

Acreditando em traição por parte da esposa, identificada como Adriana Barrios, de 22 anos, Denilson Ramires Medina, de 27, matou a mulher com diversos golpes de faca e objetos perfurantes. O crime aconteceu no dia 5 de agosto, em uma aldeia de Paranhos. 

Jucimar Amaral Delmondes

Mesmo na presença dos filhos de 5 e 9 anos de Nathália Rodrigues Nogueira, de 26, Jucimar Amaral Delmondes matou a companheira a facadas pelas costas, durante uma discussão. O crime aconteceu no dia 6 de agosto, na cidade de Rio Verde de Mato Grosso. 

Lourival da Cruz Neto 

Com 19 anos, Lourival da Cruz Neto é o mais jovem entre os suspeitos investigados por feminicídio em MS, em 2026. Ele matou, com golpes de foice, a companheira Joseane Oliveira Nunes, de 33. O crime aconteceu na noite do dia 19 de agosto, em Campo Grande, e o autor preso horas depois na cidade de Jaraguari, onde tentava se esconder. 

Rubens Alves Justino 

Caso mais recente de feminicídio em Mato Grosso do Sul, Rubens Alves Justino foi preso nesta sexta-feira (21), suspeito de matar Fátima Alves de Matos, de 54 anos. O autor negou o crime, mas as marcas de ferimento no corpo da vítima contradizem a versão dos fatos apresentada por ele, que deve passar por audiência de custódia neste sábado (22).

Denuncie a violência contra a mulher

Violência doméstica, seja psicológica, física, moral ou verbal, é crime e precisa ser combatida. Saiba como denunciar:

  • Emergência: se a agressão estiver acontecendo, ligue 190 imediatamente;
  • Central de denúncias: disque 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível denunciar via WhatsApp: (61) 9610-0180;
  • Presencial: procure a delegacia mais próxima ou acione a Polícia Militar pelo 190;

Em Mato Grosso do Sul, as denúncias de violência de gênero podem ser feitas de maneira on-line.

Clique aqui e faça a denúncia.

⚠️ Violência contra a mulher não pode ser ignorada. Basta! Denuncie.

Selo Basta

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