quarta-feira, novembro 4, 2026

É hora de refletir: o agro brasileiro está sem rede de proteção

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Foto: Pixabay.

O agronegócio brasileiro conquistou, ao longo das últimas três décadas, um papel central na economia mundial. O crescimento populacional, a urbanização acelerada e o aumento do consumo de alimentos transformaram o país em um dos maiores fornecedores globais de commodities.

Esse modelo funcionou.
E funcionou muito bem.

Mas o mundo mudou, e talvez o maior risco seja agir como se nada tivesse mudado.

Um mundo endividado pede reflexão, não automatismos

A economia global entrou em um período de ajuste profundo. Não se trata apenas de mais um ciclo econômico, mas de um cenário marcado por endividamento extremo, crescimento mais lento e tensões geopolíticas crescentes.

Hoje, a dívida combinada de governos e empresas se aproxima de 360% do PIB global. Isso não se resolve com medidas rápidas. É um processo longo, estrutural e restritivo,  sobretudo para países emergentes.

Nesse ambiente, as previsões perdem valor. Reflexão estratégica ganha centralidade.

Geopolítica pressiona preços, e custos não cedem

O uso crescente da força econômica e política como instrumento de poder aumenta a instabilidade global. Os Estados Unidos retomam uma postura mais assertiva justamente quando o mundo perde fôlego econômico.

A tentativa de Donald Trump de reforçar a liderança americana ocorre em um contexto de inflação elevada e custo de vida pressionado. Esse tipo de movimento costuma gerar mais incerteza, menos investimento e cadeias produtivas mais frágeis.

O efeito é conhecido:

  • preços das commodities pressionados;
  • custos de produção em alta;
  • margens cada vez mais estreitas.

O retrovisor das grandes economias deixa um alerta

Estados Unidos, Europa e China já passaram por esse estágio de maturação econômica. A resposta foi clara: subsídios amplos, permanentes e estruturais ao setor agropecuário.

Essas economias entenderam que, em ciclos de baixo crescimento, o agro não se sustenta apenas pelo mercado.

O contraste brasileiro: juros altos e pouca capacidade de socorro

O Brasil chega a essa mesma transição em condições muito mais delicadas. O Estado está altamente endividado e com espaço fiscal limitado. Não há fôlego para ampliar subsídios de forma relevante além do que já existe, concentrado na agricultura familiar.

E há um agravante decisivo:
Quanto maior a dívida, mais difícil é a queda da taxa de juros.

Com um endividamento elevado, o país convive, e tende a conviver por mais tempo, com uma das taxas de juros mais altas do planeta. Juros estruturalmente elevados encarecem o crédito, dificultam renegociações, pressionam o caixa do produtor e turbinam a fragilidade financeira do campo.

Esse fator age como um multiplicador de risco em um ambiente já adverso.

Um setor pressionado por todos os lados

O produtor brasileiro já enfrenta:

  • alto endividamento;
  • aumento das recuperações judiciais;
  • ausência de um seguro rural eficaz;
  • deficiência grave de infraestrutura, especialmente de armazenagem, hoje limitada .

Em outros países, esse conjunto de problemas levou a grandes aportes do Estado. No Brasil, essa alternativa simplesmente não existe.

Diversificar passa a ser proteção, não escolha

Nesse contexto, diversificação, integração de atividades, agregação de valor e gestão rigorosa deixam de ser estratégia opcional. Tornam-se instrumentos de defesa econômica.

Não se trata de abandonar commodities, mas de reduzir exposição em um país que entra em um ciclo difícil sem rede de proteção pública e com juros elevados.

Um convite à reflexão, antes que o cenário fique ainda mais duro

Este texto não faz previsões.
Faz um chamado à reflexão.

Refletir sobre um mundo mais instável.
Refletir sobre um Estado sem capacidade de amparo amplo.
Refletir sobre juros altos que vieram para ficar por mais tempo.

Relatórios do Banco de Compensações Internacionais mostram um mundo com pouco espaço para erros. E o Brasil, nesse tabuleiro, precisa pensar antes de agir.

Em um cenário global endividado, geopoliticamente tensionado e com crédito caro, seguir no piloto automático pode custar muito caro ao agro brasileiro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


ÓCanal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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