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Erupção vulcânica pode ter contribuído para disseminação da peste negra na Europa

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Atividades vulcânicas podem ter contribuído para o alastramento da peste negra na Europa no século 14, doença que devastou parte da população do continente. A hipótese consta de um novo estudo, publicado nesta quinta-feira (4) no periódico Communications Earth & Environment, da Nature.

Estima-se que a pandemia de peste negra tenha vitimado milhões de pessoas à época. Alguns estudos apontam mais da metade dos habitantes europeus, porém uma pesquisa mais recente, de 2022, sugeriu que esses dados são superestimados.

Os autores da nova pesquisa afirmam que erupções vulcânicas levaram a quedas de temperaturas entre 1345 e 1347. Esse cenário, por sua vez, impactou as plantações de grãos, fazendo com que trocas comerciais entre regiões da Ásia e da Europa fossem intensificadas. Teria sido nesse contexto que navios, carregados de grãos, teriam carregado pulgas infectadas com a bactéria para países europeus.

Outras pesquisas apontaram que a Yersinia pestis tem origem em roedores selvagens na Ásia Central e chegaram à Europa pela região do mar Negro. No entanto, existem poucas evidências sobre quais fatores influenciaram a disseminação da doença entre Ásia Central e Europa a partir de 1347, questão que o novo estudo buscou responder.

Para isso, a pesquisa se baseou em análises de paleoclimatologia, área que busca entender o clima da Terra em diferentes momentos da história. No estudo, os autores se atentaram a relatos históricos sobre uma erupção vulcânica -ou um conjunto de erupção, não se tem certeza- que ocorreu próximo do ano de 1345.

Os cientistas encontraram evidências de que pouco depois desse fenômeno vulcânico houve registros de ondas de frio na Europa, especialmente na região do mar Mediterrâneo. Anéis azuis em árvores na região dos Pirineus, na Espanha, foram cruciais para essa conclusão. Eles são indicativos de que houve uma anomalia no desenvolvimento dessas árvores, pois suas madeiras não se consolidaram plenamente.

Segundo os autores, seria essa queda abrupta na temperatura, sobretudo em meados de 1345 e 1346, que causou tal falha na constituição das árvores, dando origem aos anéis. Fontes históricas analisadas no estudo também contêm relatos de verões particularmente frios nesses anos.

“Os dados dos anéis das árvores me dão confiança de que minhas fontes escritas estão relatando fatos ao descreverem anomalias meteorológicas”, afirmou Martin Bauch, do Instituto Leibniz para a História e Cultura da Europa Oriental (Alemanha), autor do novo estudo.

“Por outro lado, as fontes escritas podem trazer afirmações sobre as estações do ano para as quais os anéis de crescimento não fornecem nenhuma informação”, acrescentou ele.

FOME E A PESTE NEGRA

O distúrbio climático associado à erupção vulcânica teve relação com um encolhimento na produção de grãos. Esse cenário, por sua vez, culminou com uma onda de fome intensa entre 1345 e 1347, especialmente na região ao redor do Mediterrâneo. Os autores argumentam que, por causa disso, algumas potências marítimas na península italiana, como Gênova, Veneza e Pisa, solucionaram o problema ao importar grãos de mongóis dos arredores do mar Negro em 1347.

“Essa mudança no comércio de grãos de longa distância, impulsionada pela fome, não apenas impediu que grandes partes da Itália morressem de fome, mas introduziu a bactéria da peste por meio de cargas de grãos nos portos do Mediterrâneo e alimentou sua rápida dispersão por grande parte da Europa”, afirmam os autores no artigo.

Concluir que uma mudança climática temporária causada por atividades vulcânicas acelerou a disseminação da peste negra na Europa é relevante por apontar como diversos fatores influenciam a propagação de doenças.

Na avaliação de Bauch, é importante entender a peste negra como um sistema complexo, em que diferentes elementos estiveram interligados. “A bactéria da peste não se altera fundamentalmente, assim como seus efeitos nocivos e a velocidade de sua disseminação. Com esse estudo, esperamos questionar pressupostos como ‘mesmo patógeno mesmo impacto’.” Ou seja, um patogeno não necessariamente teria o mesmo desfecho em todo contexto uma vez que outros aspectos influenciam a disseminação do doença.

Leia Também: Vídeo secreto de sobreviventes sendo mortos em ataque dos EUA no Caribe choca democratas

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