Documentos obtidos pela reportagem mostram que os contratos com a empresa investigada na operação tapa-buracos pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) atravessaram a gestão do ex-prefeito Marquinhos Trad e continuaram ativos, recebendo aditivos, reajustes e novos empenhos já na administração da prefeita Adriane Lopes (PP).
Os dados contrariam a versão divulgada pela prefeitura após a deflagração da Operação “Buraco Sem Fim”, quando o Executivo afirmou que a investigação se referia a “contratos firmados em 2017, em gestão passada”, já que a empresa Construtora Rial Ltda continuou firmando contratos milionários com a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos).
Um dos principais contratos investigados é o de número 279/2022, firmado em 1º de julho de 2022, já sob a administração de Adriane Lopes, que assumiu a prefeitura em abril daquele ano. O contrato previa manutenção de pavimento asfáltico e recomposição de capa asfáltica na região do Anhanduizinho.
O valor inicial era de R$ 10,2 milhões, mas os aditivos elevaram o total para R$ 52,1 milhões. Conforme o Portal da Transparência, R$ 29,9 milhões já foram pagos à empresa. Em fevereiro de 2026, a prefeitura ainda autorizou reajuste de 29,484% no contrato, acrescentando mais R$ 2,6 milhões ao valor estimado da execução.
Outro contrato que aparece nos registros é o de número 280/2022, também celebrado em 1º de julho de 2022, para serviços de tapa-buracos e recuperação asfáltica na região do Imbirussu.
Nesse caso, o valor original era de R$ 5,4 milhões. Com os aditivos assinados ao longo da execução, o montante saltou para R$ 29,7 milhões. Os pagamentos já realizados chegam a R$ 21,3 milhões. Assim como no outro contrato, houve novo reajuste autorizado em fevereiro de 2026, com acréscimo de R$ 1,2 milhão.
Além da manutenção dos contratos herdados, a gestão Adriane Lopes também assinou novos acordos com a mesma empresa investigada.
O contrato de número 27/2025 foi firmado em 7 de fevereiro de 2025, no valor inicial de R$ 7,4 milhões, para manutenção de vias não pavimentadas em regiões como Anhanduizinho, Bandeira, Imbirussu, Lagoa, Prosa e Segredo.
Poucos meses depois, os aditivos elevaram o valor total para R$ 16,5 milhões. Em fevereiro de 2026, a prefeitura autorizou novo reajuste de 13,2%, acrescentando mais R$ 1,1 milhão ao contrato.
Já em 30 de abril de 2026, pouco antes da operação do MPMS ser deflagrada, a prefeitura assinou o contrato nº 87/2026 com a mesma construtora. O acordo, no valor de R$ 4 milhões, prevê recuperação funcional do pavimento asfáltico em vias urbanas da região do Imbirussu.
Desta forma, considerando os contratos e aditivos assinados ou mantidos durante a gestão da prefeita Adriane Lopes com a Construtora Rial Ltda, o valor total chega a aproximadamente R$ 102,5 milhões, entre 2022 e 2026, mesmo ano citado pelo MPMS.
Veja a soma dos contratos:
Contrato nº 279/2022 (Anhanduizinho): R$ 52.157.356,45
Contrato nº 280/2022 (Imbirussu): R$ 29.783.245,48
Contrato nº 27/2025 (vias não pavimentadas): R$ 16.576.939,65
Contrato nº 87/2026 (recuperação asfáltica): R$ 4.045.000,00
O último contrato que entrou na lista do MPMS para investigação foi firmado em 2018, sendo 003/2018 para manutenção de vias não pavimentadas, com revestimento primário, em vias urbanas, nas regiões urbanas no Anhanduizinho, Bandeira, Imburusso, Lagoa, Prosa e Segredo, com valor inicial de R$ 6.149.820,60.
Por conta da operação, os servidores investigados como Edivaldo Aquino Pereira e Mehdi Talayeh, que ocupavam cargos ligados à fiscalização e execução dos contratos ligados ao serviço de tapa-buracos, foram exonerados para ‘apresentação de defesa’.
Operação
A Operação “Buraco Sem Fim”, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul por meio do Gaeco e do Gecoc, apura um suposto esquema de fraude em contratos de tapa-buracos e manutenção viária em Campo Grande.
Segundo os investigadores, medições eram fraudadas para liberar pagamentos por serviços que não teriam sido executados integralmente. Durante as buscas, foram apreendidos R$ 429 mil em dinheiro vivo.
O MPMS aponta que a empresa investigada recebeu mais de R$ 113 milhões em contratos e aditivos entre 2018 e 2025. As investigações seguem em sigilo.

