domingo, abril 26, 2026

Goiânia ainda tem radiação do Césio-137? Entenda a verdade após série da Netflix

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O pó branco que brilhava azul no escuro fascinou uma família e mudou para sempre a história de Goiânia. Quase quatro décadas após o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, as vítimas que tiveram o primeiro contato direto com o césio-137 em setembro de 1987 continuam carregando sequelas físicas, emocionais e o peso do esquecimento — agora reacendido pela série da Netflix “Emergência Radioativa”.

Tudo começou em 13 de setembro de 1987. Os catadores de sucata Roberto dos Santos Alves (21 anos) e Wagner Mota Pereira (20 anos) entraram no prédio abandonado do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, no Setor Aeroporto. Eles encontraram um aparelho de teleterapia, desmontaram a peça pesada e a venderam para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Ninguém imaginava que dentro da cápsula havia 19,26 gramas de cloreto de césio-137 — um material radioativo extremamente perigoso.

Devair, fascinado pelo brilho azul-esverdeado, abriu a cápsula. O pó se espalhou por mãos, roupas, casas e até alimentos. A contaminação atingiu dezenas de pessoas em poucos dias.

Os primeiros contatos: quem vive e quem partiu

Entre os que tiveram contato inicial com o material:

  • Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, os dois catadores que iniciaram a cadeia, estão vivos em 2026, mas convivem com sequelas graves da exposição.
  • Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho, morreu em 1994, aos 43 anos, após desenvolver depressão, alcoolismo e complicações de saúde.
  • Sua esposa, Maria Gabriela Ferreira, foi uma das primeiras a alertar as autoridades. Morreu em 23 de outubro de 1987.
  • Leide das Neves Ferreira, sobrinha de Devair, de apenas 6 anos, ingeriu o pó ao brincar e se tornou o símbolo da tragédia. Morreu no mesmo dia que a tia.
  • Ivo Alves Ferreira, pai de Leide e irmão de Devair, morreu em 2003, vítima de enfisema pulmonar agravado pela tragédia.

Ainda vivos entre os primeiros atingidos estão Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide, hoje com 74 anos, e Odesson Alves Ferreira, irmão de Devair, que preside a Associação das Vítimas do Césio-137. Odesson, com cerca de 62 anos, carrega cicatrizes visíveis nas mãos — perdeu parte da palma e falanges do dedo indicador — e continua lutando pelos direitos dos sobreviventes.

Oficialmente, o governo registra 4 mortes diretas por síndrome aguda de radiação: Leide, Maria Gabriela, Israel Baptista dos Santos (22 anos) e Admilson Alves de Souza (18 anos), ambos funcionários do ferro-velho. A Associação estima mais de 100 óbitos ao longo dos anos por complicações relacionadas, como cânceres e problemas hematológicos. Cerca de 249 pessoas tiveram contaminação confirmada na época, e mais de 112 mil foram monitoradas.

Pensões: um alívio que chega atrasado

Hoje, 603 vítimas recebem pensão vitalícia estadual, sem reajuste desde 2018. Os valores eram de R$ 954 ou R$ 1.908 mensais — abaixo do salário mínimo em muitos casos. Sobreviventes como Lourdes relatam: “A gente não vive, vegeta”.

Na última semana, o governador Ronaldo Caiado enviou à Assembleia Legislativa um projeto de lei que reajusta as pensões em 69,92%. Se aprovado, os valores passarão para R$ 3.242 (para doses acima de 100 RAD) e R$ 1.621 (demais casos), com vigência a partir de abril de 2026. O impacto orçamentário é estimado em R$ 3,6 milhões este ano. Caiado chamou a medida de “respeito, justiça e cuidado com as vítimas”.

Mais de 1.000 pessoas ainda são acompanhadas no Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), em Goiânia. O lixo radioativo — mais de 6 mil toneladas — permanece armazenado em local seguro em Abadia de Goiás e exigirá vigilância por séculos, devido à meia-vida do césio-137 (cerca de 30 anos).

A série da Netflix divide opiniões

A estreia de “Emergência Radioativa”, em 18 de março, reacendeu o debate. A minissérie dramatiza os fatos com atores como Johnny Massaro e Leandra Leal, mas gera críticas da Associação: falta de consulta direta às vítimas, gravações majoritariamente fora de Goiânia e algumas liberdades artísticas. Outros sobreviventes veem na produção uma oportunidade de manter a memória viva e pressionar por mais apoio.

Lourdes das Neves Ferreira, ao assistir à série, resumiu o sentimento: “Qualquer coisa sobre o acidente me deixa triste, mas é importante que relembrem tudo aquilo, para não acontecer de novo”. Ela guarda fotos da filha Leide como tesouro e diz que o “sorrisão” da menina ainda a conforta.

Quase 39 anos depois, o brilho azul desapareceu, mas as cicatrizes permanecem. As vítimas não pedem apenas pensões ou remédios: querem dignidade, reconhecimento pleno e que a lição de Goiânia impeça novas tragédias com fontes radioativas abandonadas em qualquer lugar do mundo.

Enquanto o Estado dá um passo importante com o reajuste, a luta para não serem esquecidas continua — todos os dias.

Veja fotos reais de um dos maiores acidentes radiológicos do mundo:

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