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Há 30 anos, 8 mil garimpeiros invadiam a Terra Indígena Sararé em MT; devastação se repete

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Há 30 anos, a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, vivia uma invasão de grandes proporções. Em 1996, estimativa da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) apontava a presença de mais de 8 mil garimpeiros em busca de ouro no território Nambikwara. Na época, uma comunidade de não mais que 80 indígenas estava acuada em uma única aldeia. Três décadas depois, o cenário de devastação provocado pela exploração ilegal voltou a se repetir.

O paralelo entre os dois períodos aparece no Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em 2026. A situação da Sararé ganhou um capítulo específico, escrito pelo jornalista Rubens Valente, que esteve no território durante a invasão da década de 1990.

A repetição da história também está simbolizada nas capas da publicação. Em 1996, uma enorme cratera aberta pelo garimpo na terra dos Nambikwara estampou o relatório do Cimi. Agora, três décadas depois, a Sararé voltou à capa diante de uma nova intensificação da exploração ilegal de ouro.

Garimpo criou espécie de cidade dentro da terra indígena

O relato recuperado pelo Cimi ajuda a dimensionar o que ocorria na década de 1990. Cerca de 1,5 mil dragas funcionavam em dez grandes concentrações de garimpeiros vindos de diferentes estados, entre eles Rondônia, Tocantins, Pará e Maranhão.

Um desses núcleos, conhecido como Ferrugem IV, chegou a formar uma estrutura semelhante a uma cidade clandestina. Conforme reportagem da época recuperada pelo relatório, havia aproximadamente 100 pontos comerciais, incluindo oficinas mecânicas, farmácias, bordéis e até casas de bingo.

A dimensão da destruição também impressionava. O relato descreve crateras de até 15 metros de profundidade, que se estendiam por aproximadamente 12 quilômetros em linha reta.

Três décadas depois, 4,9 mil hectares desmatados

O garimpo voltou a avançar com força sobre a Sararé nos últimos anos. Somente em 2025, o Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), registrou 1.463 hectares desmatados dentro da terra indígena.

O território acumula 4,9 mil hectares de desmatamento e foi a terra indígena com maior área sob alertas de mineração em 2024 e 2025, conforme dados do Deter/Inpe citados pelo relatório.

A estimativa da Defensoria Pública da União (DPU) chegou a apontar a presença de cerca de 5 mil garimpeiros atuando ilegalmente na Sararé. Segundo o documento, a atividade conta com uma extensa cadeia de abastecimento de máquinas, combustível, alimentos e outros produtos necessários para sustentar o contingente de invasores.

Garimpos na Terra Indígena Sararé (Foto: reprodução)

Rios contaminados e locais sagrados ameaçados

As consequências vão além da retirada da vegetação. O relatório aponta que o avanço do garimpo provocou contaminação de rios e igarapés por mercúrio e resíduos oleosos, assoreamento e redução da fauna utilizada para a subsistência dos indígenas.

Os Nambikwara Katitãurlu também relatam preocupação com a destruição de locais sagrados, áreas tradicionais de pesca e espaços utilizados para coletar materiais empregados na produção de flechas, artesanato e em rituais.

O documento cita ainda circulação de fuzis e drogas, uso de explosivos, redes de túneis e equipamentos de internet Starlink encontrados durante ações de fiscalização. Investigações também apontam ligações de garimpeiros com facções criminosas relacionadas ao tráfico de drogas.

Centenas de acampamentos desmontados

A ofensiva para retirar os invasores ganhou força com a Operação Xapiri-Sararé, iniciada em agosto de 2025 com participação de órgãos como Funai, Ibama, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e Ministério dos Povos Indígenas.

Até o fim de novembro daquele ano, 490 acampamentos de garimpo haviam sido desmobilizados. As equipes também inutilizaram 113 escavadeiras hidráulicas, 361 motores de garimpo e quase 51 mil litros de combustível, além de motos, caminhões e munições. O prejuízo estimado imposto à atividade ilegal chegou a R$ 177 milhões.

As equipes localizaram ainda 14 abrigos subterrâneos abastecidos com suprimentos.

Terra indigena sarare

Garimpeiros retornaram após operações

Apesar das operações, o problema não foi encerrado. Lideranças indígenas relataram que garimpeiros retornaram ao território e retomaram as atividades depois da saída das equipes, repetindo uma dinâmica observada em ações anteriores.

Segundo o relatório, os acessos terrestres facilitam a volta dos invasores. Diante disso, indígenas reivindicam a instalação de bases fixas em pontos estratégicos da Sararé, com presença permanente para impedir novas ocupações.

O documento aponta ainda que operações de desintrusão realizadas em outras terras indígenas, como Yanomami, Kayapó e Munduruku, podem ter contribuído para o deslocamento de garimpeiros para a Sararé.

Assim, três décadas separam as imagens da invasão de 1996 da atual devastação da Sararé. O que permanece é a disputa pelo ouro e a dificuldade de impedir que a exploração ilegal volte a ocupar o território Nambikwara mesmo depois de sucessivas operações de retirada.

FONTE: PRIMEIRA PÁGINA

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