domingo, setembro 27, 2026

Mulheres rompem barreiras do preconceito e estudam mecânica para nova era da celulose em MS

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Quando Roni Pereira de Lima viu o anúncio de um curso de mecânica florestal em Bataguassu (MS), o primeiro pensamento foi o de que aquele universo não lhe pertencia. Moradora da cidade há duas décadas, ela decidiu ir até o local das inscrições tirar a prova. “Quando eu vi que era mecânica florestal, pensei que era só para homens. Fui até o local das inscrições e perguntei se poderia ter mulheres também. Falaram que sim. Na nossa turma eram só três meninas e 22 homens”, relembra.

A simples curiosidade se transformou em uma aposta profissional. Roni passou dois meses e meio estudando em período integral. A rotina misturava aulas teóricas, atividades práticas e uma imersão de sete dias no campo. O objetivo era claro: garantir um lugar no mercado que começa a se desenhar com a futura chegada da Bracell ao município. “Eu achei uma possibilidade boa para entrar no mercado de trabalho, porque Bataguassu está em uma fase que vai mexer bastante com essa parte de máquinas florestais”, diz.

A intuição de Roni reflete uma transformação muito maior. Com apenas 24,2 mil habitantes, Bataguassu se prepara para receber um gigante de R$ 16 bilhões. O projeto da fábrica de celulose estima a circulação de até 12 mil trabalhadores durante as obras e a criação de 2 mil vagas diretas na fase de operação. Como o empreendimento obteve a Licença Prévia e agora ajusta o projeto para conseguir a Licença de Instalação, com previsão de início das construções para 2027, o município ganhou um tempo valioso para arrumar a casa.

A lógica adotada foge do roteiro comum de esperar o problema estourar para depois pensar em soluções. O governador Eduardo Riedel (PP) resume a estratégia como um esforço governamental de preparação. “A diferença entre crescer e ser atropelada pelo crescimento está na capacidade de antecipação. Uma cidade preparada pode ampliar empregos sem expulsar moradores pelo aluguel, receber empresas sem abandonar o comércio local e aumentar a população sem sobrecarregar permanentemente escolas, unidades de saúde e ruas”, explica.

Formar quem já vive na região é o pilar dessa mudança. A Escola Técnica Municipal abriu as portas em maio de 2025 com mais de 4,8 mil metros quadrados dedicados à qualificação. As opções incluem desde o curso de Mecânico de Máquinas Florestais, com 340 horas e bolsa de R$ 1,2 mil, até Técnico em Florestas. Em paralelo, a prefeitura e a Bracell fecharam uma formação de dois anos para mais de 120 alunos, com compromisso de contratação no final.

O Senai também acompanha esse ritmo, ofertando turmas de manutenção industrial, gestão e logística. Segundo Rodrigo Bastos, gestor da região Costa Leste da entidade, o diálogo com as empresas dita o que vai para a sala de aula. “Nosso trabalho é antecipar essa demanda para que a população esteja preparada quando essas oportunidades se consolidarem”, afirma.

O impacto não fica restrito aos crachás da fábrica. A pressão por moradias acendeu um alerta para evitar que a alta dos aluguéis atinja aposentados e famílias de menor renda, forçando uma revisão no Plano Diretor em busca de novas áreas habitacionais. As estradas acompanham a escalada. A concessão da Rota da Celulose, formalizada em fevereiro, projeta cerca de R$ 10 bilhões em melhorias, duplicando e criando terceiras faixas em rodovias como a BR-267. Dentro do perímetro urbano, o Governo do Estado anunciou R$ 25 milhões para asfalto, restauração de vias e obras habitacionais.

Para segurar o dinheiro novo no próprio município, o programa Encadear, feito com o Sebrae, começou a treinar fornecedores locais de alimentação, transporte e manutenção para atender as futuras demandas da indústria.

Enquanto a burocracia das licenças segue seu trâmite para 2027, a transformação de Bataguassu já se concretiza nas histórias de quem resolveu investir em si mesmo. Roni acompanha de perto os colegas sendo chamados e aguarda sua vez. “O curso foi maravilhoso, foi tudo o que eu imaginava. Tivemos aula teórica e depois veio a prática, que foi sensacional, porque é quando você coloca a mão na massa”, conta a moradora, que agora só pensa no próximo passo. “Eu tenho vontade de entrar nessa área e estou no aguardo das próximas vagas.”

FONTE: TOP MIDIA NEWS

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