A crise política na Colômbia ganhou novos contornos nesta semana após o presidente Gustavo Petro denunciar um suposto esquema de fraude eleitoral na apuração da eleição presidencial realizada no último domingo (21). A declaração elevou a tensão institucional no país em meio a uma disputa extremamente acirrada, que pode redefinir os rumos políticos da quarta maior economia da América Latina.
A denúncia ocorreu após a divulgação da pré-contagem oficial, que apontou vantagem do opositor Abelardo De La Espriella sobre Iván Cepeda. Segundo os dados preliminares, De La Espriella obteve 49,66% dos votos válidos, o equivalente a 12,9 milhões de votos, enquanto Cepeda alcançou 48,70%, somando 12,7 milhões. A diferença entre os candidatos é de aproximadamente 250 mil votos, margem considerada estreita diante do universo de 26,3 milhões de eleitores que compareceram às urnas.
O comparecimento de 63,6% foi o maior já registrado em uma eleição presidencial colombiana, reforçando o peso político do pleito e a elevada mobilização popular em torno da disputa.
Em publicação nas redes sociais, Petro afirmou que há evidências de adulteração em documentos eleitorais utilizados na consolidação da pré-contagem. Segundo o presidente, formulários oficiais teriam sido alterados digitalmente após o envio inicial ao sistema.
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O mandatário citou especificamente os formulários E-14, documentos físicos que registram os votos de cada urna e servem como base para a conferência eleitoral. De acordo com Petro, arquivos teriam sido modificados após o upload, comprometendo elementos digitais que garantiriam a autenticidade dos registros.
Para o presidente, o caso configura um “delito contra o voto”, expressão utilizada para caracterizar possível violação da soberania popular.
Petro também direcionou suspeitas à empresa Thomas Greg & Sons, responsável por parte da operação de contagem preliminar, ao citar empresários ligados à companhia.
Suspeita de interferência externa amplia crise
As declarações mais sensíveis vieram quando Petro mencionou supostas alterações em endereços IP de servidores ligados ao Registro Nacional, órgão responsável pela organização eleitoral.
Segundo ele, mudanças nos acessos digitais indicariam comprometimento do software responsável pela transmissão de dados. O presidente chegou a sugerir possível interferência estrangeira, mencionando inclusive Israel como possível origem da violação.
A declaração provocou forte repercussão política e elevou o tom da crise, uma vez que as acusações ainda não foram acompanhadas de provas públicas conclusivas.
Diferentemente de outros países da região, a Colômbia adota um sistema de apuração em duas fases.
A primeira é a pré-contagem, divulgada poucas horas após o encerramento da votação. Essa etapa tem caráter apenas informativo e serve para indicar tendências iniciais, mas não possui valor jurídico definitivo.
O resultado oficial depende do escrutínio, segunda fase do processo eleitoral. Nessa etapa, juízes eleitorais realizam uma conferência manual dos formulários físicos, analisando eventuais inconsistências, impugnações e recursos apresentados pelas campanhas.
Esse mecanismo existe justamente para corrigir erros materiais ou resolver contestações levantadas após a divulgação preliminar.
Enquanto Petro elevou o tom, Iván Cepeda adotou postura mais cautelosa. Em coletiva, o candidato afirmou que sua campanha apresentou 57,1 mil reclamações formais que deverão ser analisadas durante o escrutínio.
Apesar das contestações, Cepeda evitou usar a palavra fraude e reforçou que aguardará a conclusão oficial da apuração antes de tomar posição definitiva sobre o resultado.
A sinalização foi interpretada por analistas como tentativa de reduzir a temperatura política e evitar escalada institucional.
Eleição revive trauma de 2022
As suspeitas levantadas por Petro também reabriram lembranças de um episódio eleitoral recente. Em 2022, o escrutínio das eleições legislativas alterou de forma significativa o resultado da pré-contagem.
Na ocasião, o Pacto Histórico, coalizão que sustenta o atual governo, recuperou cerca de 389 mil votos que inicialmente não haviam sido contabilizados, conquistando cadeiras adicionais no Congresso após a revisão.
Esse precedente fortalece argumentos de setores que defendem cautela antes de validar qualquer resultado definitivo.
Em meio ao aumento da tensão, missões internacionais buscaram conter a polarização. A Organização dos Estados Americanos avaliou positivamente a condução da jornada eleitoral e pediu serenidade aos colombianos.
A missão de observação afirmou que continuará acompanhando todas as etapas do escrutínio, incluindo eventuais contestações e recursos apresentados pelas campanhas.
A União Europeia também acompanha de perto o processo e deve divulgar avaliação preliminar sobre a votação.
A disputa presidencial ocorre em um momento delicado para a Colômbia, marcado por desaceleração econômica, tensão social, polarização ideológica e desafios de segurança interna.
Por isso, o desfecho do escrutínio vai além da definição de um vencedor eleitoral. O processo passou a representar também um teste de confiança nas instituições democráticas colombianas.
Com acusações graves vindas do próprio chefe de Estado e um resultado ainda sob contestação, a Colômbia entra em um período de alta sensibilidade política, em que cada nova atualização da apuração poderá influenciar diretamente a estabilidade do país.
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