sábado, setembro 19, 2026

Previsão de “fim do mundo” em 13 de novembro de 2026 nasceu de modelo matemático de 1960

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Estudo publicado na revista Science projetou crescimento populacional infinito, mas não previu uma catástrofe mundial; dados atuais apontam para desaceleração demográfica

A data de 13 de novembro de 2026 voltou a circular nas redes sociais associada a uma suposta previsão científica sobre o fim do mundo. A origem da afirmação é um estudo publicado em 1960 na revista Science, que utilizou um modelo matemático para projetar o crescimento da população mundial.

Apesar do título alarmante — “Doomsday: Friday, 13 November, A.D. 2026” —, o trabalho não previa a destruição da Terra, uma catástrofe global ou o desaparecimento da humanidade em uma data específica. O cálculo indicava que, caso a população continuasse crescendo exatamente de acordo com o padrão observado nos dois milênios anteriores, o modelo chegaria a uma situação em que o número de habitantes tenderia matematicamente ao infinito.

O estudo foi elaborado pelos pesquisadores Heinz von Foerster, Patricia M. Mora e Lawrence W. Amiot e publicado em 4 de novembro de 1960. A projeção resultou de uma extrapolação matemática de dados históricos, e não de uma previsão física sobre o destino do planeta.

Como surgiu a data de 13 de novembro

Os pesquisadores analisaram estimativas da população mundial referentes a aproximadamente 2 mil anos e observaram uma tendência de crescimento cada vez mais acelerado ao longo da história.

A partir dessas informações, desenvolveram uma equação que descrevia um crescimento populacional mais rápido do que o modelo exponencial tradicional. Quando a fórmula foi projetada para o futuro, apontou para uma chamada singularidade matemática, estimada para novembro de 2026.

Nesse contexto, a singularidade representava o ponto em que a equação deixaria de produzir um número finito de habitantes. Não significava que a população real poderia se tornar infinita, mas que o modelo não seria fisicamente aplicável caso a tendência permanecesse inalterada.

A projeção dependia de uma condição essencial: a continuidade indefinida do padrão de crescimento observado anteriormente. Mudanças sociais, econômicas, sanitárias e demográficas não eram consideradas de maneira suficiente para impedir o avanço da curva.

Por que a previsão não se confirmou

Nas décadas seguintes à publicação do estudo, o comportamento demográfico mundial mudou significativamente.

A taxa de fecundidade caiu em diversas regiões, enquanto fatores como urbanização, ampliação do acesso à educação, planejamento familiar e mudanças econômicas contribuíram para a desaceleração do crescimento populacional.

O mundo ainda registra aumento no número de habitantes, mas em um ritmo muito diferente daquele considerado no modelo de 1960. Por isso, a trajetória observada não corresponde à projeção que apontava para uma população tendendo ao infinito em 2026.

A experiência demonstra uma limitação comum em modelos matemáticos: uma equação pode representar uma tendência histórica e, ainda assim, produzir resultados inadequados quando as condições que sustentavam aquela tendência se modificam.

O que dizem as projeções atuais da ONU

As estimativas mais recentes das Nações Unidas não apontam para um crescimento populacional infinito. De acordo com o relatório World Population Prospects 2024, a população mundial, estimada em aproximadamente 8,2 bilhões de pessoas em 2024, deverá continuar crescendo nas próximas décadas.

A projeção indica um pico de cerca de 10,3 bilhões de habitantes em meados da década de 2080. Depois disso, a população global deverá iniciar uma redução gradual, chegando a aproximadamente 10,2 bilhões até o fim do século.

O cenário previsto pela ONU considera fatores como fecundidade, mortalidade, estrutura etária e diferenças demográficas entre países e regiões. Dessa forma, apresenta uma abordagem mais abrangente do que a extrapolação utilizada no estudo de 1960.

A previsão não indicava uma catástrofe mundial

A interpretação de que o estudo teria anunciado o fim do mundo em 13 de novembro de 2026 é uma simplificação incorreta.

O trabalho não previa a colisão de um asteroide, uma guerra mundial, o desaparecimento repentino da humanidade ou a destruição do planeta. A data era o resultado de um cálculo sobre o comportamento da população, condicionado à manutenção de uma tendência específica.

O próprio título utilizava uma abordagem provocativa para chamar a atenção para as consequências de uma extrapolação matemática extrema. O estudo deve ser compreendido como uma análise de crescimento populacional, e não como uma previsão literal de apocalipse.

O futuro distante da atmosfera terrestre

Pesquisas científicas também investigam transformações que podem ocorrer na Terra em escalas de tempo muito maiores. Um estudo publicado em 2021 na revista Nature Geoscience, realizado por pesquisadores da Universidade de Toho, no Japão, e do Instituto de Tecnologia da Geórgia, analisou a evolução futura da atmosfera terrestre.

Utilizando modelos climáticos e biogeoquímicos, os cientistas estimaram que a atmosfera rica em oxigênio poderá permanecer nesse estado por aproximadamente 1,08 bilhão de anos, com uma margem de incerteza de cerca de 140 milhões de anos.

Segundo o estudo, o aumento gradual da luminosidade do Sol e a redução do dióxido de carbono disponível para a biosfera poderão provocar mudanças na produção de oxigênio. Em determinado momento, a concentração do gás deverá cair significativamente, dificultando a sobrevivência de organismos multicelulares que dependem dele.

Entretanto, essa pesquisa não estabelece uma data exata para o fim da vida na Terra. Trata-se de uma projeção sobre processos físicos e biológicos que ocorreriam ao longo de centenas de milhões e bilhões de anos.

O que esperar de 13 de novembro de 2026

Não há evidências científicas de que a data de 13 de novembro de 2026 represente um prazo para o fim do mundo ou para o início de um crescimento populacional infinito.

O dia foi obtido a partir de um modelo matemático desenvolvido há 66 anos, baseado na hipótese de que uma tendência histórica permaneceria inalterada. Como o comportamento da população mundial mudou, a projeção deixou de corresponder à realidade.

As estimativas atuais apontam para a continuidade do crescimento populacional nas próximas décadas, seguida de um possível pico na década de 2080 e de uma redução gradual.

Portanto, a data permanece relevante como parte da história da modelagem demográfica, mas não representa uma previsão científica confirmada de catástrofe. O estudo é real, o cálculo existiu, mas a interpretação de que ele anunciou o fim do mundo não corresponde ao que a pesquisa demonstrou.

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