É o caso de Snow, 21, que é servidor federal no Sul do país. Após a rotina no trabalho, ele produz vídeos e fotos sexuais para uma plataforma.
O jovem avalia que leva uma vida dupla em dois mundos sem conflitos de interesse. “Não enxergo que a produção de conteúdo seja algo que vai prejudicar meu desempenho profissional”, afirma à reportagem.
Ele diz que os conteúdos eróticos renderam dinheiro para viagens que dificilmente faria apenas com o trabalho formal. Porém, os ganhos financeiros no setor erótico, diz Snow, não superam o salário dele. “Quando posto muito e divulgo, ganho uns R$ 3.000. Mas, se não atualizo muito, fica por volta de R$ 1.000.”
O publicitário Lucas, 31, também produz para plataformas eróticas e estima que os ganhos são inferiores ao que recebe na empresa em que trabalha. “Nos melhores meses, consigo tirar cerca de R$ 5.000 com esses conteúdos.”
Lucas começou a gravar vídeos adultos há cerca de três anos, como forma de renda extra. “Eu passava noites em claro fazendo freelance para complementar o salário na época, então comecei a produzir esses conteúdos.”
Mesmo com uma promoção recente no trabalho, ele continuou com os conteúdos eróticos. “Quando for promovido a um cargo com um salário ainda melhor, pretendo parar.”
Lucas e Snow (nomes fictícios a pedido deles) consideram essas produções como algo incerto e temporário, principalmente por causa do estigma que costuma acompanhar o tema.
TRABALHO E FAMÍLIA
Para esses trabalhadores, o anonimato se torna um aliado importante para não prejudicar o emprego formal. Eles costumam adotar pseudônimos nas plataformas adultas. Porém, não tratam o fato exatamente como um segredo absoluto.
Lucas fala sobre os conteúdos para amigos e colegas de trabalho, mas evita comentar sobre isso com os chefes. “Não sei nem se estaria empregado se soubessem dos meus perfis. Como trabalho no meio corporativo, em um setor tradicional, acredito que não seria visto com bons olhos”, conta.
Snow diz que sabe dos riscos de se expor nas redes, mas afirma que não se importaria se familiares ou colegas de trabalho descobrissem. “Não estou fazendo nada de errado.”
“Se souberem, é algo que não vou me importar. Talvez os meus pais fiquem bravos e tristes, mas eu me resolveria com eles. Não acho que isso é o fim do mundo, não preciso que as pessoas aceitem o que faço da minha vida”, diz.
Por ser concursado, avalia Snow, há uma segurança em fazer essas atividades sem ser demitido. “Se fosse um outro tipo de [regime de] trabalho, eu teria mais receio, mas acho que ainda assim faria”, aponta.
“Tenho conhecidos que trabalham como professores, por exemplo, e desistiram de vender conteúdos, porque sabiam que seria mais complicado conciliar com a profissão”, diz Snow.
Uma das estratégias adotadas por quem tem essa espécie de vida dupla é evitar compartilhar as plataformas adultas nas redes pessoais. Para divulgar os conteúdos sexuais, eles costumam criar um perfil exclusivamente para isso.
NÃO EXISTE ANONIMATO TOTALMENTE
A cientista social Carolina Bonomi, que pesquisa sobre gênero e sexualidade, aponta que a produção de conteúdo adulto é carregada de preconceito. Ela afirma que o anonimato nesses casos se torna inevitável para quem tem um emprego formal.
Bonomi avalia que essa busca por renda extra deveria ser considerada semelhante à de trabalhadores que recorrem a plataformas de entrega ou de transporte particular também por questões econômicas.
“Mas o trabalho sexual tem muito estigma, então isso pode cair mal no lugar em que a pessoa trabalha, por uma questão moral. Muitas pessoas podem perder seus empregos por isso. Isso acontece por puro preconceito, porque a lei mesmo não diz nada que uma pessoa não pode ter essa forma de complementar a renda”, afirma.
A pesquisadora faz um alerta: não existe anonimato totalmente garantido nesses casos. Segundo ela, há riscos como o vazamento dessas imagens ou até mesmo de algum conhecido descobrir o conteúdo.
APOSENTADORIA
Esses conteúdos representam apenas uma fase da vida, avalia Lucas. “Nunca vi isso como algo duradouro, porque as pessoas querem ver um corpo bonito nessas plataformas e sei que o corpo um dia acaba. O meu foco mesmo é na minha carreira.”
Há quem tenha conciliado trabalho e produção adulta durante algum tempo, mas atualmente já parou de produzir conteúdo erótico.
A redatora Lara (nome fictício), 34, considera que esse tema quase não faz mais parte da sua vida. “Chegou a um ponto em que deixou de ser tão divertido e passou a ser cansativo”, afirma.
Ela começou a produzir esses materiais em 2019. Em 2023, porém, a atividade se tornou o seu único recurso financeiro, após ser demitida.
Os amigos mais próximos sabiam da atividade dela. “Na minha vida pessoal, todo mundo sempre soube, mas por segurança mesmo preferi nunca me expor demais na internet ou no trabalho. Sei que existe um estigma muito grande nisso.”
Desde o ano passado, ela parou de produzir novos conteúdos porque decidiu se dedicar a um novo emprego na área de marketing. No entanto, o perfil dela segue ativo. “Mas hoje em dia o que ganho nessas plataformas não chega nem a 30 dólares [cerca de R$ 150] por mês. Antigamente, eu tirava uns 500 ou 600 dólares mensais.”
A falta desses conteúdos diminuiu consideravelmente a renda mensal de Lara, mas ela diz que não planeja fazer novas publicações. “Estou numa fase de outras prioridades e acho que já não cabe mais como antes.”
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