A investigação da Operação “Buraco Sem Fim” aponta que o suposto esquema de corrupção envolvendo contratos de tapa-buracos em Campo Grande operava com divisão clara de funções entre empresários, servidores públicos e integrantes da cúpula da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos).
Segundo documento obtido pelo TopMídiaNews, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul detalhou que o grupo atuava de forma “estruturalmente ordenada”, com tarefas previamente definidas para fraudar medições, manipular contratos e liberar pagamentos por serviços que não teriam sido executados integralmente.
No topo da estrutura, conforme a investigação, estaria Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como “Peteca”, apontado como sócio oculto da Construtora Rial Ltda e responsável pelas decisões estratégicas do grupo. Formalmente, a empresa estava registrada em nome de Lieni Gusmão Jacques Pedrosa e Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, filho de Peteca e administrador da construtora.
A Construtora Rial aparece no inquérito como uma das principais formas de desvios financeiros do esquema. O MPMS afirma que a empresa acumulou mais de R$ 113 milhões em contratos e aditivos entre 2018 e 2025, valores que, segundo os investigadores, não teriam correspondência com os serviços efetivamente executados.
Dentro da Sisep, o núcleo operacional seria comandado pelo engenheiro Mehdi Talayeh, apontado como responsável por definir os valores que deveriam constar nas planilhas de medição. O servidor Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula apareceria como executor das inserções fraudulentas nos sistemas de controle.
Já Fernando de Souza Oliveira, identificado como gerente de Controle de Medições, teria função estratégica na manutenção do esquema. Segundo o MP, ele ajustava os valores para que as planilhas refletissem os acordos ilícitos definidos internamente, além de monitorar saldos contratuais para identificar quanto ainda poderia ser desviado.
O ex-secretário da Sisep Rudi Fiorese é apontado pela investigação como integrante do núcleo de comando político-administrativo da organização. Conforme os autos, ele validava medições superfaturadas, cobrava rapidez nos empenhos e pagamentos e participava diretamente da definição dos valores lançados nas planilhas.
Outro nome citado é o de Edivaldo Aquino Pereira, servidor apontado como responsável por validar medições fictícias, assinar documentos para acelerar pagamentos e auxiliar na operacionalização burocrática do esquema.
Ainda conforme o Ministério Público, o grupo mantinha uma espécie de “engenharia paralela”, financiada por empreiteiras envolvidas nas fraudes.
Além disso, o documento aponta que a Construtora Rial continuou mantendo contratos milionários com a Prefeitura de Campo Grande durante a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP).
Um dos principais contratos investigados é o de número 279/2022, firmado em julho de 2022 para manutenção e recomposição asfáltica na região do Anhanduizinho. O valor inicial era de R$ 10,2 milhões, mas os aditivos elevaram o contrato para R$ 52,1 milhões.
Outro contrato citado é o de número 280/2022, também assinado em julho de 2022, para serviços de recuperação asfáltica na região do Imbirussu. O valor inicial de R$ 5,4 milhões saltou para R$ 29,7 milhões após os reajustes.
A gestão Adriane Lopes também assinou o contrato nº 27/2025, voltado à manutenção de vias não pavimentadas em diversas regiões da Capital. O acordo começou em R$ 7,4 milhões e chegou a R$ 16,5 milhões após aditivos.
Já em abril de 2026, poucos dias antes da operação do MPMS, a prefeitura firmou o contrato nº 87/2026 com a mesma construtora, no valor de R$ 4 milhões, para recuperação asfáltica na região do Imbirussu.
Somados, os contratos e aditivos mantidos ou assinados durante a atual gestão chegam a aproximadamente R$ 102,5 milhões.
A Operação “Buraco Sem Fim”, deflagrada pelo Gaeco e pelo Gecoc, apura supostas fraudes em contratos de tapa-buracos e manutenção viária em Campo Grande. Durante as buscas, foram apreendidos R$ 429 mil em dinheiro vivo.

