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Ulisses Rocha ‘rebaixa’ Segov da política e pasta perde função

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Alçado ao posto de secretário de Governo de Campo Grande após a queda do experiente Youssif Domingos, o advogado Ulisses Rocha acabou por rebaixar à pasta, mesmo de modo inconsciente. O homem de confiança do marido da prefeita Adriane Lopes (PP) assume com a missão declarada de reorganizar a base política e fortalecer a imagem do governo municipal, em meio à turbulência e crise financeira. 

O primeiro ato público do novo secretário foi uma visita protocolar à Câmara Municipal, onde prometeu o retorno do estacionamento rotativo na Capital. 

A lógica da administração é invertida. Em um momento de “crise” e “turbulência”, quando a gestão mais precisa reorganizar a base política, seria esperado a nomeação de um articulador político ainda mais forte que Youssif, indicado direto da senadora Tereza Cristina (PP), para gerir o incêndio.

A prefeitura fez o exato oposto. Ela rebaixou o perfil da pasta de “político” para “técnico”. Esta decisão sinaliza que a gestão desistiu de ter uma articulação política institucional independente via Segov. A função política foi 100% absorvida por Lídio Lopes, deputado estadual esposo da prefeita, e Ulisses Rocha assume como um “gestor de crise” técnico. Seu “perfil conciliador” não é para formular estratégias de poder, mas sim para executar tecnicamente as medidas de austeridade e absorver o desgaste político na Câmara.

GESTÃO SITIADA
A crise política na Segov não ocorre no vácuo. Ela é o reflexo de um colapso administrativo generalizado que toma conta de Campo Grande desde o início do novo mandato, em janeiro de 2025. 

O problema central da gestão é o descontrole fiscal. A prefeitura estourou o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Relatórios indicam que as despesas com folha de pagamento atingiram 57,73% da Receita Corrente Líquida, um montante de R$ 3,022 bilhões nos últimos 12 meses, que representa R$ 185 milhões acima do teto legal de 54%.

A infraestrutura urbana básica de Campo Grande entrou em colapso. Múltiplas fontes descrevem o cenário como uma “epidemia de buracos”. A situação é tão crítica que, em diversos bairros, moradores estão tapando os buracos por conta própria, utilizando entulho e terra.

O problema atingiu o nível do constrangimento político. O vereador Flávio Cabo Almi (PSDB) usou a tribuna da Câmara para desabafar que a rua onde mora está “intransitável” e que ele sente “vergonha de sair e encontrar com os vizinhos”. 

Na zona rural, em fevereiro, a queda de uma ponte sobre o Córrego Cabeceira da Onça isolou produtores, impedindo o escoamento da safra. A prefeitura alegou “falta de mão de obra”, mas o problema é percebido como financeiro e gerencial.

O caos administrativo se reflete diretamente nos serviços essenciais. Na Saúde, pacientes denunciam rotineiramente a falta de médicos em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Na UPA Moreninha, por exemplo, foram registrados relatos de esperas de mais de 4 horas. A Secretaria de Saúde (Sesau) chegou a admitir a falta de profissionais escalados, justificando com a “alta demanda”.

Na Educação, foram feitas denúncias graves sobre a falta de segurança em Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI). Um vídeo gravado por uma mãe mostrou que era possível entrar e caminhar livremente pela EMEI Jardim Carioca, sem qualquer segurança, portaria ou abordagem, expondo a vulnerabilidade das crianças. A prefeitura classificou o episódio como “pontual”.

A gestão de Adriane Lopes opera sob uma dualidade de comando disfuncional. O poder de jure (da prefeita e seus secretários) é constantemente esvaziado pelo poder de facto (do articulador-marido, Lídio Lopes). Esta estrutura, onde o poder real não é o poder formal, gera paralisia.

A administração municipal, enfrentando uma rejeição de 80% e um “caos administrativo”, parece ter desistido de governar e passou a sobreviver. A queda de Youssif Domingos foi o custo pago por um político experiente que, segundo fontes, não suportou a falta de preparo da gestora em um governo onde a autonomia é nula e o poder real reside fora do Paço Municipal. 

Enquanto a guerra de bastidores define quem manda, a cidade sem médicos, sem segurança nas escolas e sem asfalto é deixada à própria sorte.

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