sábado, setembro 12, 2026

‘Perdi minha paz’, declara estudante após professor da UFMT ser solto

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Uma rotina marcada pelo medo, angústia e crises de ansiedade constantes, é como uma estudante define os dias após a soltura do professor de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Saulo Tarso Rodrigues, que estava preso preventivamente em meio a investigação por suposto assédio sexual e ameaça contra a jovem, em Cuiabá. Ele foi solto na terça-feira (1º) após passar 20 dias detido.

O caso foi registrado às autoridades por meio de boletim de ocorrência na Polícia Civil para apuração criminal dos fatos narrados pela aluna e também gerou um processo administrativo disciplinar (PAD) em face do docente no âmbito acadêmico.

Ao Primeira Página, a jovem conta que os assédios começaram após ela tomar a posição de líder de sala. Os contatos com o professor ocorriam para discutir assuntos das aulas, mas em pouco tempo, segundo a jovem, as conversas da parte do docente vieram acompanhadas de elogios e mensagens constantes de “bom dia” diariamente em rede social.

“Perguntei a um colega se ele também fazia isso com outras pessoas, mas era só pra mim. Eram comportamentos estranhos sempre próximos de mim na sala de aula, e todo mundo começou a notar. Eu tentava me afastar dele. Ele fazia convites para tomar vinho, me buscar e me levar, só que eu nunca aceitei”, conta.

A jovem relata ainda que o desconforto passou a ultrapassar o meio virtual e ocorrer também nas aulas e dentro da UFMT, de forma presencial.

“Ele já chegou a passar a mão na minha perna. Quase tocou na minha bunda em uma palestra uma vez, meus amigos começaram a perceber meu desconforto e chegou uma hora que estava todo mundo vendo. Eu tive que chamar colegas para sentar um menino à frente, um menino atrás, um menino do lado, porque toda hora ele sentava do meu lado, queria ficar muito próximo e mesmo assim ele continuou”, acrescenta.

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Os contatos no meio virtual se intensificaram e o professor então, de acordo com a jovem, teria passado a mandar mensagens até mesmo do celular da própria mãe e da esposa, já que a estudante não retornava mais as mensagens.

“Eu bloqueei ele em tudo e falei, porque eu enviei três textos falando pra ele parar, que não estava legal. E mesmo assim, ele continuou, chegou a mandar SMS dizendo estar apaixonado por mim e aí eu fui fazer medida protetiva”, desabafa.

Busca por ajuda por meio das instituições

A jovem conta que conseguiu acolhimento na universidade, por meio do diretor da faculdade e da reitora da UFMT. Um PAD foi instaurado para apurar a conduta do docente. No dia 10 de agosto deste ano Saulo Tarso Rodrigues foi preso preventivamente pela Polícia Civil, por decisão do Juízo das Garantias da Comarca de Cuiabá.

UFMT determina abertura de PAD para apurar suposta lista de estudantes que seriam molestadas por colegas. - Foto: Reprodução

Para a jovem, a prisão foi um alívio, mas momentâneo. Vinte dias depois, o professor foi solto. Ele não será monitorado eletronicamente, mas deverá observar as cautelares fixadas como a proibição de aproximação da vítima e de seus familiares e testemunhas, observada a distância mínima de 500 metros.

Além disso, ele está proibido de manter contato com a vítima e testemunhas por qualquer meio de comunicação, direto ou indireto, inclusive por intermédio de terceiros, e não deve frequentar a residência e o local de trabalho da estudante.

O descumprimento das cautelares poderá motivar uma nova prisão preventiva.

Crises de ansiedade e medo constante

A jovem conta que quando eu soube da soltura imediatamente passou mal. “Eu tive e estou tendo muitas crises de ansiedade. Não tenho coragem de ir para casa sozinha, peço para colegas irem comigo, saio mais cedo das aulas, estou morrendo de medo. Eu não sei do que a pessoa é capaz”, desabafa.

UFMT prorroga inscrições de concurso para docentes até 5 de abril - Foto: Reprodução

Segundo ela, o medo não se estende somente ao ambiente acadêmico, mas também sente medo quando andar nas ruas e outros trajetos.

“Eu só sei que eu espero que cada um siga a sua vida, que ele não venha me procurar mais, eu também não quero saber dele, eu quero minha paz de novo, o que foi tirado de mim foi a paz. De andar tranquilo na rua, de fazer as coisas tranquilas, de não estar sendo marcada por isso”, conclui.

Outro lado

O Primeira Página entrou em contato com a defesa de Saulo para um posicionamento ou manifestação sobre o caso. A advogada do professor informou que em função do sigilo processual não deve se manifestar.

Já a defesa da estudante, por meio do advogado Yuri da Cunha Silva Machado informou que recebe a decisão com tranquilidade, mas espera que o investigado cumpra as medidas cautelares impostas pela Justiça.

“A defesa da estudante recebe com tranquilidade a decisão que determinou a soltura do Réu Saulo Tarso Rodrigues, e que manteve vigentes as cautelares anteriormente impostas. O Réu possui o direito de responder o processo em liberdade, caso não venha a violar novamente as medidas fixadas pela Justiça”, diz a nota.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) para verificar quais medidas foram adotadas pela instituição em relação a repercussão do caso criminalmente.

A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) informa que o professor Saulo Tarso Rodrigues encontra-se em afastamento cautelar de suas atividades na Universidade, conforme medida administrativa adotada pela Instituição“, diz a nota.

Por Saulo não ter registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT), a entidade não se manifestou.

Investigação segue em andamento

Os fatos foram registrados como suposta prática dos crimes de perseguição, previsto no artigo 147-A do Código Penal, e importunação sexual, previsto no artigo 215-A.

As acusações descritas no boletim de ocorrência ainda dependem de apuração pelas autoridades competentes. O registro policial reúne a versão apresentada pela estudante sobre os fatos. O professor não foi condenado e o processo segue em curso.

FONTE: PRIMEIRA PÁGINA

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