Era tudo combinado. É o que diz, em 132 páginas, a representação do Ministério Público Estadual que na sexta-feira (11) desmontou a cúpula do maior hospital filantrópico de Mato Grosso do Sul e jogou a presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, numa cela.
A Operação Antidotum levou cinco dirigentes do hospital para a prisão preventiva: além de Alir, o diretor administrativo-financeiro Rinaldo Hakme Romano, o diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira, o diretor de finanças adjunto Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa e a supervisora do arquivo médico Monique Gregório de Oliveira.
A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, decretou também a prisão do empresário Maurício Aparecido Benites, dono da Redvalue Tecnologia, afastou o advogado Paulo da Cruz Duarte e a administradora do plano de saúde Beatriz Lemes da Silva e mandou a polícia em 35 endereços, o hospital entre eles.
Peculato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude em contratação e organização criminosa. É o que o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e a 29ª Promotoria enxergam, em tese, no que aconteceu dentro da Santa Casa desde fevereiro de 2023, quando Alir assumiu. Ninguém foi denunciado ainda. Mas o que está escrito no papel apresentado pelo Parquet Estadual é devastador e assombra ainda mais quem precisa da Santa Casa.
Três empresas, um dono só
Ministério Público diz que as três empresas da cotação tinham o mesmo dono, que a minuta do contrato de R$ 150 mil por mês chegou pronta no Word para o diretor financeiro e que diretores atestaram serviço que não existia. “A caneta está com a gente”, diz o vice-presidente em áudio
Começa com uma cotação de preços, dessas que existem para provar que a instituição pesquisou o mercado. Tudo balela! Em agosto de 2024, a Santa Casa consultou quatro empresas para digitalizar seus prontuários médicos. Três delas, segundo o MP, eram a mesma coisa.
A Redvalue Tecnologia, com sede de papel em Goiânia, ofereceu R$ 0,05 por página e levou o contrato: R$ 150 mil por mês. A EXBE Finance & Tech, da Rua Eduardo Santos Pereira, no Monte Castelo, perdeu. A Infortech Informática ofereceu R$ 0,12 e perdeu também.
O detalhe? Benites era dono da EXBE, tinha entrado na Redvalue poucos meses antes e havia sido diretor executivo da Infortech de 2017 até agosto de 2024, o exato mês da cotação. Em documento interno apreendido, ele assina como “CEO do Grupo Exbe – Redvalue”. Ao mandar os papéis da Redvalue para o hospital, pelo e-mail [email protected], copiou o próprio endereço no domínio @infortechms.com.br. Quanta ignorancia!
As propostas da Redvalue e da EXBE, quando colocadas lado a lado, têm o mesmo texto, as mesmas expressões, a mesma estrutura. E a proposta da Redvalue, empresa “de Goiânia”, trazia no rodapé o endereço da EXBE, em Campo Grande.
Não havia concorrência. Havia encenação, na leitura da promotoria: “As propostas foram produzidas dentro do mesmo grupo econômico para simular competição e conferir aparência de regularidade à contratação previamente direcionada.”
O contrato chegou pronto. Em Word.
Mas a peça tem coisa pior do que cotação de fachada. Em 27 de agosto de 2024, dois meses antes de qualquer assinatura, Benites mandou para Rinaldo Romano a minuta do contrato. O diretor pediu em arquivo editável. O empresário mandou o Word.
Quem ia ser contratado escreveu as próprias cláusulas.
E o roteiro seguiu. Em áudio recuperado do celular, Rinaldo pede a Benites o e-mail da Redvalue para que o setor de Compras refaça o pedido de orçamento às três empresas, “porque a doutora pediu para entrar pelo Compras”. Em 22 de outubro, uma semana antes da assinatura, o diretor tranquiliza o empresário: “já está tudo certo, já passou, já teve toda a questão do conselho… a doutora mesmo me cobrou ontem, falei para ela que estava tudo na mesa dela já”.
Sem estudo técnico. Sem termo de referência. Sem análise de viabilidade. Sem uma linha comprovando que a Redvalue tinha qualificação para digitalizar prontuário de hospital de grande porte. O contrato foi assinado em 29 de outubro de 2024.
“A caneta está com a gente”
Quem aparece do outro lado da linha com Benites é o então vice-presidente da Santa Casa, Jary de Carvalho e Castro. Quando o empresário reclama que uma funcionária da área de tecnologia estava atrapalhando a troca de sistema, Jary responde com a frase que virou o retrato da gestão: “Ela pode até estar com eles, mas nós não estamos, né? E a caneta está com a gente. Então fica tranquilo.”
Em 8 de abril de 2025, o vice explica por que não conseguia pagar R$ 1,8 milhão de uma vez ao empresário: “estou com a fiscalização em cima, estou com o governo em cima, estou com a auditoria em cima”. E promete ver com Rinaldo “como é que a gente faz para pagar uma parte para você”.
O MP pediu a prisão de Jary. A juíza negou, ele saiu da diretoria em janeiro de 2026 e, sete meses depois, a promotoria não mostrou risco atual.
Pagaram R$ 750 mil por R$ 88 mil de serviço
Aqui a conta entra em cena, e ela é simples de entender, pega papel e caneta que é hora da revisão.
Entre janeiro e 16 de abril de 2025, a Redvalue digitalizou 1.772.198 páginas. A R$ 0,05 a página, isso vale R$ 88.609,90. No mesmo período, o hospital pagou quatro notas de R$ 150 mil e ainda lançou “adiantamentos”. O MP soma R$ 750 mil no primeiro semestre e chama a diferença de R$ 661.390,10 de “prova inconteste do peculato”.
Em 5 de fevereiro de 2025, a própria Monique Gregório havia avisado, por escrito, que não existiam páginas digitalizadas e que não havia como validar a nota 61. A nota foi paga do mesmo jeito. Os atestos de execução levam as assinaturas de Monique, Alessandro e Rinaldo.
Em maio, os dois diretores tiveram uma ideia melhor ainda: pedir um aditivo cortando a meta de 3 milhões para 1 milhão de páginas por mês, mantendo os mesmos R$ 150 mil. Na prática, a empresa entregaria um terço e o preço da página triplicaria. Rinaldo avisou Benites que Paulo Guilherme falou: “vamos passar logo, que eu já assino”. A Coordenação de Custos derrubou em 23 de junho: sem mapa de cotações, sem justificativa técnica, aumento de 200% no custo unitário, queda de 66% na capacidade, nenhuma economia para a Santa Casa.
Em agosto de 2025, o Conselho Fiscal recomendou suspender o contrato e apurar responsabilidades. A recomendação foi para a gaveta.
O dia em que tudo aconteceu junto
18 de fevereiro de 2026. Marque essa data.
Nesse dia, Alir Terra Lima respondeu à 49ª Promotoria de Justiça, por ofício, que a Redvalue prestava o serviço “com diligência, certificação legal e a segurança exigidas”.
No mesmo dia, na Junta Comercial de Mato Grosso do Sul, a EXBE mudou de dono: saiu Maurício Benites, entrou Fernanda de Freitas Diniz, companheira dele e ex-funcionária registrada da Infortech. Para o MP, troca de nome sem troca de comando, pois, Benites continuou se apresentando como CEO, usando os bens da empresa e dividindo estrutura com a Redvalue.
Também em 18 de fevereiro, um memorando interno assinado por Monique registrava o total digitalizado em 16 meses de contrato: 3.818.695 páginas. Pelo preço contratado, R$ 190.934,75.
E aí veio março. Com o procedimento criminal já instaurado, a Santa Casa fez dois Pix para a Redvalue: R$ 563.100 em 12 de março e R$ 422.325 em 27 de março. Quase um milhão de reais, num hospital que declara déficit mensal de R$ 13 milhões e convive com falta de remédio.
“Todo mundo chama ele de ladrão”
Que o cerco estava fechando, os diretores sabiam. Em áudio de 14 de fevereiro deste ano, Alessandro Junqueira conta que foi a uma reunião com 40 médicos no sindicato dos médicos (Sinmed/MS), “o covil do monstro”, e ouviu que “não aceitam o Rinaldo aqui dentro da administração, que ele rouba”.
Na mesma conversa, relata que o presidente do Conselho Fiscal, Antonio Urban Filho, viu um carro de R$ 350 mil estacionado na vaga da diretoria, achou que era dele e ligou para a presidente: “Se ele não tiver outra fonte de renda, ele está roubando a Santa Casa”. O carro era de Rinaldo. E Alessandro conclui, resignado: “Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora.”
Para a juíza, medidas mais brandas não resolveriam, porque “a retenção, a apresentação fragmentária e ocultação de documentos constituem precisamente parte da dinâmica investigada”.
Leia na Parte 2: o caminho do dinheiro, saques de R$ 49.999, servidores públicos no caixa e as escrituras pagas em espécie.
OUTRO LADO
O TopMídia News procurou a Santa Casa, as defesas de Alir Terra Lima, Rinaldo Romano, Alessandro Junqueira, Paulo Guilherme Mariosa, Monique Gregório e Maurício Benites, e a Redvalue.
FONTE: TOP MIDIA NEWS

