A ativista e coordenadora municipal de Políticas Públicas LGBTQIAPN+, Cris Stefanny, anunciou nesta quinta-feira (15) o pedido de exoneração do cargo que ocupava na Prefeitura de Campo Grande e atribuiu a saída ao “esvaziamento institucional” das políticas de direitos humanos na atual gestão da prefeita Adriane Lopes (PP).
Em nota pública, Cris Stefanny afirmou que formalizou o pedido ainda em março deste ano, mas decidiu tornar pública a decisão após o descumprimento de compromissos assumidos pela prefeitura relacionados à reestruturação da área de direitos humanos e fortalecimento das pautas LGBTQIAPN+.
Militante histórica do movimento em Mato Grosso do Sul, Cris relembrou a trajetória de mais de duas décadas na luta pelos direitos da população trans e destacou que atuou em diferentes gestões municipais desde o governo de Alcides Bernal. Ela também citou participação direta na criação e articulação de políticas públicas voltadas à população, como o Ambulatório do Processo Transexualizador, atualmente em funcionamento no Hospital Universitário.
Na carta, a ativista criticou a redução da estrutura administrativa da área de direitos humanos dentro da prefeitura, afirmando que houve perda de autonomia, diminuição de equipes e ausência de orçamento para ações básicas. Segundo ela, atividades institucionais passaram a depender de apoio externo para custear materiais e eventos.
Cris Stefanny também afirmou que ficou mais de um ano tentando uma agenda institucional com a prefeita Adriane Lopes e relatou ter sofrido “violência política, psicológica e moral” durante a permanência na gestão.
Entre os principais pontos apontados para a saída está a sanção da Lei Municipal nº 7.615/2026, conhecida como “Lei Cássia Kis”, aprovada recentemente pela Câmara Municipal. Na nota, a ex-coordenadora classificou a legislação como “flagrantemente inconstitucional” e criticou declarações públicas da prefeita sobre mulheres trans e travestis.
Ela citou decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), como a ADO 26 e o MI 4733, que equipararam a LGBTfobia ao crime de racismo, além da ADI 4275, que reconheceu o direito à alteração de nome e gênero por pessoas trans. Segundo a ativista, os posicionamentos da gestão municipal “reforçam estigmas históricos contra uma população que já se encontra entre as mais vulnerabilizadas do país”.
Ao encerrar a nota, Cris Stefanny afirmou que permanecer na administração municipal significaria contrariar sua própria trajetória política e de militância. “Despeço-me com o coração partido, mas consciente de que dei o meu melhor”, escreveu.

