O anúncio foi feito nesta quarta-feira (19) pela influente irmã do ditador, Kim Yo-jong, em um comunicado. Ela ocupa desde fevereiro um cargo equivalente a ministro no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, que governa o país como uma dinastia familiar desde 1948.
Em tom de esnobada, ela disse “é verdade” que o irmão tem “boas lembranças do presidente dos EUA e sentimos pessoais positivos em relação a ele. “Mas as relações pessoais entre os líderes dos dois países não podem ser confundidas com as relações entre os dois Estados. A política hostil dos EUA não mudou em nada”, escreveu.
Depois, ressaltou que os EUA ainda assim realizavam exercícios militares com sua rival Coreia do Sul, país que vive um armistício com o Norte há 73 anos.
De forma inédita na relação com o governo capitalista da porção sul da Península Coreana, Trump cortou pela metade os exercícios que começaram na segunda (17). Assim, os 11 dias de manobras viraram 5, a acabar nesta sexta (21).
“Não vale a pena comentar essa medida, e não temos interesse nela. A natureza provocativa e agressiva desses exercícios não mudará, ainda que sua duração e sua escala sejam reduzidas”, concluiu.
A irmã de Kim disse não ter informação sobre contatos de seu irmão com Trump, como o americano havia dito no começo da semana. Questionado nesta quarta sobre reportagem do Wall Street Journal segundo a que ele queria um encontro ainda este ano, Trump disse: “Sim, vou me reunir com ele”.
O palco para tal encontro pode ser, segundo o jornal, o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, que ocorre em novembro em Shenzhen (China).
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, lamentou a decisão de Trump e disse que ela reforça sua política de tornar independente o comando militar da península em caso de guerra.
Analistas temem que o movimento leve Seul a buscar sua própria bomba nuclear, dada a percepção de desengajamento americano. Pyongyang, que rejeitou as propostas de normalização de Lee e acelerou seus testes de mísseis, opera estimadas 60 ogivas atômicas.
A China, uma das poucas aliadas de Kim ao lado da Rússia e do Irã, acompanha de perto a situação. Seu chanceler, Wang Yi, está em Seul nesta quarta para conversas que poderão levar a uma cúpula entre Lee e o líder Xi Jinping, algo que sinalizaria uma mudança política no leste da Ásia.
O posicionamento de Kim Yo-jong é parte desse balé, buscando demonstrar independência enquanto Trump dá sinais contraditórios.
O americano parece estar atrás de um trunfo diplomático enquanto se vê atolado na guerra inconclusa contra o Irã antes das eleições legislativas de novembro, quando pode perder o controle do Congresso.
Kim, o ditador, já foi objeto de adulação por parte de Trump no primeiro mandato do republicano, que o chamava de “pequeno homem-foguete”, por suas aspirações nucleares. Naquele momento, Pyongyang não só conduziu um teste atômico como testou mísseis capazes de atingir os EUA.
A escalada levou a uma acomodação sugerida por Trump, o que agradou Kim. Só que, após três encontros, a relação esfriou e morreu, sendo enterrada por Joe Biden e sua política de renovada aliança com a Coreia do Sul. Isso agora está mudando de novo.
Kim também tem à mão a carta do acordo de defesa mútua assinado com Vladimir Putin em 2024, que levou milhares de seus soldados para lutar contra a invasão ucraniana da região de Kursk. Pelo arranjo, se Seul invadir o Norte, o Kremlin poderá intervir -com consequências globais, talvez nucleares.
No comunicado desta quarta, a Kim irmã negou, contudo, o relato do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, de que a ditadura asiática estava pronta para mandar 50 mil militares para ajudar Putin em uma ofensiva contra seu território.
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