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Enfermeira de MT cria boneca que usa ‘semáforo’ para ajudar crianças a reconhecer toques inadequados

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Uma boneca com marcações nas cores vermelho, amarelo e verde, semelhantes às de um semáforo, foi criada pela enfermeira Raquel Cardoso, de Tangará da Serra (MT), para ajudar crianças a compreender os limites do próprio corpo e identificar situações de risco. Batizada de Boneca do Toque, a ferramenta utiliza uma linguagem lúdica para abordar a prevenção da violência sexual infantil e facilitar conversas entre pais, professores e crianças.

A ideia surgiu durante o período em que Raquel trabalhava no setor de pediatria de um hospital. Ao acompanhar a rotina de crianças e responsáveis, a enfermeira percebeu a necessidade de criar uma ferramenta que ajudasse as famílias a ensinar, desde cedo, sobre privacidade, cuidados com o corpo e situações em que o contato físico não é adequado.

“Eu observava alguns comportamentos de algumas mães para com a criança, de falta de proteção ali no cuidado da higienização. Então, vi essa necessidade de ter uma ferramenta para as mães orientarem suas crianças de uma forma simples”, explicou.

A boneca também pode ser personalizada de acordo com as características da criança, para que ela se identifique com o brinquedo e compreenda melhor as orientações.

“Quando os pais pedem para eu confeccionar a Boneca do Toque, eu já faço uma boneca personalizada para a criança se ver identificada nela”, contou Raquel.

Como funciona a Boneca do Toque?

boneca semaforo

A ferramenta utiliza as três cores de um semáforo para explicar, de maneira visual, os limites do contato físico. Cada cor representa uma orientação diferente, ajudando a criança a reconhecer situações que exigem atenção e a entender que seu corpo deve ser respeitado.

Na parte vermelha, estão representadas as regiões íntimas do corpo, que não devem ser tocadas por outras pessoas, exceto em situações necessárias de higiene ou cuidados de saúde, sempre com explicação e respeito à criança.

“Ela vai entender que, na parte vermelha, esses locais são proibidos. Só vai acontecer o toque quando a mamãe for fazer uma higienização. Então, ela entende que esses cuidados são coisas rápidas. Fora isso, não pode tocar”, explicou a enfermeira.

A cor amarela indica regiões que exigem atenção, como a parte superior das pernas, próximas às áreas íntimas. A orientação é que a criança reconheça contatos que provoquem desconforto e saiba que pode pedir para que parem.

Já a cor verde representa regiões como a cabeça, onde podem ocorrer demonstrações de carinho. Mesmo nesses casos, Raquel ressalta que o adulto deve respeitar a vontade da criança, perguntando antes de abraçar ou tocar.

“Na parte verde, o adulto tem que entender e perguntar. Se a criança permitir, o adulto pode tocar na cabeça, fazer um carinho, pedir um abraço”, destacou.

A enfermeira explica que a proposta não é assustar as crianças, mas ensinar sobre proteção de forma apropriada para cada idade.

“Através do brincar, a criança consegue absorver bem mais o conhecimento. A educação sexual, na parte infantil, funciona assim: ela vai aprender a cuidar e proteger. É de uma forma simples e objetiva, sem nada de pejorativo”, afirmou.

As cores funcionam como recurso educativo, mas não substituem o diálogo. Mesmo contatos em regiões representadas pela cor verde devem respeitar a vontade da criança, e situações necessárias de higiene ou atendimento médico precisam ser explicadas de maneira adequada.

Tangará da Serra registra 56 casos de estupro de vulnerável

A iniciativa ganha relevância diante dos registros de violência sexual contra crianças e adolescentes em Mato Grosso.

Em Tangará da Serra, a Polícia Civil contabilizou 56 casos de estupro de vulnerável entre 2025 e o período atual de 2026, conforme os dados apresentados na reportagem.

Os números mostram a importância de orientar crianças e responsáveis sobre situações de risco, especialmente porque a violência pode ocorrer em ambientes familiares ou em outros espaços de convivência.

Pela legislação brasileira, atos sexuais ou libidinosos praticados com menores de 14 anos configuram estupro de vulnerável, independentemente de consentimento. Quando a conduta é praticada por um adolescente, a responsabilização ocorre conforme as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Além dos registros de violência sexual, a Polícia Civil informou que há outros procedimentos envolvendo crianças e adolescentes no município. São 14 relacionados a crimes previstos no ECA, 24 por maus-tratos e 18 por abandono de incapaz, considerando os dados apresentados para 2025 e 2026.

Esses registros reforçam a necessidade de ações preventivas e de uma rede de proteção capaz de identificar situações de violência e acolher as vítimas.

Polícia Civil também realiza palestras nas escolas

Além de iniciativas como a Boneca do Toque, a Polícia Civil desenvolve atividades educativas nas escolas de Tangará da Serra, com orientações sobre violência sexual, bullying e outros riscos enfrentados por crianças e adolescentes.

Durante as palestras, os profissionais também alertam os responsáveis sobre a importância de acompanhar a vida digital dos filhos e manter um diálogo aberto sobre situações que possam causar medo ou desconforto.

A orientação é que pais e responsáveis conversem regularmente com as crianças, observem mudanças de comportamento e criem um ambiente de confiança para que elas possam relatar situações inadequadas sem receio.

A prevenção também passa pelo ensino de que nenhuma criança é culpada pela violência sofrida e de que ela pode procurar um adulto de confiança sempre que se sentir ameaçada ou desconfortável.

Para Raquel, a Boneca do Toque é uma maneira de tornar esse aprendizado mais acessível. Ao transformar um assunto delicado em uma atividade lúdica, a enfermeira busca ajudar as famílias a iniciar conversas que podem ser fundamentais para a proteção infantil.

Como denunciar violência contra crianças e adolescentes?

Suspeitas de violência sexual contra crianças e adolescentes podem ser denunciadas pelo Disque 100, serviço nacional de denúncias de violações de direitos humanos.

Também é possível procurar o Conselho Tutelar ou uma delegacia da Polícia Civil. Em situações de emergência ou risco imediato, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190.

A denúncia pode ser feita mesmo quando não há confirmação da violência. Cabe aos órgãos responsáveis investigar os fatos e adotar as medidas necessárias para proteger a criança ou adolescente.

FONTE: PRIMEIRA PÁGINA

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