domingo, abril 26, 2026

Projeto Flor de Cerejeira transforma vidas com judô inclusivo a crianças autistas em Campo Grande

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Associação Flor de Cerejeira, em Campo Grande, nasceu de um sonho que surgiu dentro de casa e, ao longo de sete anos, transformou-se em um dos projetos de inclusão mais significativos voltados a crianças autistas na cidade. A iniciativa começou com o idealizador Romeu, pai de uma criança autista diagnosticada aos cinco anos de idade. Por meio do judô, ele encontrou uma forma de desenvolver as habilidades motoras, cognitivas e sociais do filho, experiência que despertou o desejo de ampliar o alcance dessa transformação.

Quem relata a origem do projeto é Ana Cláudia, cofundadora da associação. “O Romeu sempre teve esse sonho, e eu disse pra ele: ‘Se for da vontade de Deus, vamos tirar esse sonho do papel’. Ele ficava nervoso porque sempre foi taxado de ‘esquisito’, ‘diferente’. Mas quando alguém finalmente disse ‘eu topo’, ele criou coragem”, lembra.

A virada na vida de Romeu aconteceu aos 48 anos, quando também recebeu o diagnóstico de autismo e TDAH. “No dia em que a doutora disse que eu era autista, eu chorei. Finalmente eu tinha uma identidade. Eu descobri quem era o Romeu”, conta. A partir dessa revelação, ele decidiu profissionalizar-se: prestou exame e conquistou a faixa preta, tornando-se apto a dar aulas.

O projeto foi inaugurado em 2 de abril de 2018, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, com apenas três alunos. Em quatro meses, já eram 22. O crescimento levou a associação do quintal da casa de Romeu para um espaço alugado na Rua dos Barbosa e, posteriormente, para um local cedido, onde permanece até hoje.

Segundo Ana, a demanda só aumenta. “Atendemos crianças de toda a cidade, muitas delas nível 2 e 3 de suporte. Algumas precisam de atendimento individualizado. A procura é muito grande porque o autismo só cresce e a estrutura pública não dá conta. Nosso trabalho vai muito além do judô”, afirma.

O acolhimento é um dos pilares da associação. Romeu explica que o processo começa antes mesmo do primeiro movimento no tatame. “Primeiro, deixo a criança entrar no espaço, se identificar, entrar no mundo dela. Depois começo o trabalho motor, cognitivo e de socialização. O judô é lúdico: fazemos movimentos de animais, brincamos, tudo com significado”, detalha.

Para ele, ser autista também o ajuda a se conectar com os alunos. “Passei 49 anos sofrendo preconceito. As pessoas não entendiam quem eu era. Hoje, eu consigo entrar no universo dessas crianças e ajudar porque vivo isso também. Eu evoluo junto com elas”.

A associação também trabalha o sentimento de pertencimento, fundamental para o desenvolvimento emocional das crianças. “Quando elas entendem que pertencem a esse espaço, que não são excluídas, elas florescem”, explica Ana. Esse conceito inspirou inclusive o nome Flor de Cerejeira. A equipe criou ainda a Liga dos Heróis da Inclusão, utilizando os hiperfocos das crianças para estimulá-las. Romeu veste uniforme inspirado no Batman, enquanto outros alunos se identificam com personagens como Chapolin e Hulk.

Segundo Ana, a transformação é visível. “Eles começam a desabrochar. Ganham coragem, se desafiam todos os dias. O judô é disciplina, educação e autonomia. Para as famílias, isso é esperança. Porque nós não somos eternos, e queremos que esses jovens tenham independência quando não estivermos mais aqui”.

 

 

 

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